COPASA PRIVATIZADA: A ENTREGA DE UM PATRIMÔNIO DO POVO MINEIRO
Governo abre mão de empresa lucrativa e estratégica, transferindo o controle do saneamento para grupos privados sob a promessa de resolver problemas fiscais do Estado
A privatização da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) representa um dos mais profundos processos de desmonte do patrimônio público mineiro das últimas décadas. Concluída em 16 de junho, durante cerimônia realizada na Bolsa de Valores de São Paulo (B3), a operação encerra um processo iniciado durante o governo de Romeu Zema e finalizado sob a gestão de Mateus Simões. O que foi apresentado pelo governo como uma solução administrativa para os problemas fiscais do Estado é visto por seus críticos como a entrega de uma empresa estratégica, lucrativa e construída ao longo de gerações com recursos do povo mineiro.
Com a transferência do controle da companhia para a iniciativa privada, Minas Gerais abriu mão de uma das mais importantes ferramentas públicas de investimento, desenvolvimento regional e prestação de serviços essenciais. A operação movimentou cerca de R$ 8,4 bilhões e teve como principal beneficiário o Grupo Equatorial, que assumiu o controle da empresa. Para o governo, a venda representa uma forma de reduzir a dívida estadual. Para opositores, trata-se da troca de um patrimônio permanente por um alívio financeiro temporário, cujas consequências serão sentidas por décadas.
A privatização da Copasa dá continuidade a um projeto político iniciado por Romeu Zema e concluído por Mateus Simões. Se o primeiro dedicou anos à defesa da venda da companhia e à construção das condições para sua desestatização, o segundo assumiu a responsabilidade de concluir o processo e transferir seu controle ao setor privado. Ambos passam a figurar como responsáveis por uma das mais significativas mudanças na estrutura do saneamento público mineiro.
A Copasa não era uma empresa deficitária nem dependente de aportes constantes do Estado. Pelo contrário. A companhia registrou lucro líquido superior a R$ 1,4 bilhão no último exercício e manteve resultados consistentes ao longo dos últimos anos. Ainda assim, o governo decidiu abrir mão do controle da empresa por cerca de R$ 8,4 bilhões, valor que corresponde a aproximadamente cinco anos de lucro da própria companhia.
É justamente esse cálculo que alimenta as críticas de que o negócio foi realizado abaixo do potencial econômico do ativo. Afinal, qual a lógica de se desfazer de um patrimônio público rentável, estratégico e consolidado para obter uma receita imediata que se esgota rapidamente, enquanto os resultados futuros passam a beneficiar investidores privados?
O argumento oficial é de que os recursos obtidos serão utilizados para reduzir o endividamento do Estado. No entanto, essa justificativa levanta uma questão central: faz sentido vender uma fonte permanente de receita para resolver um problema fiscal de curto prazo? Para críticos da privatização, trata-se de uma escolha que sacrifica estabilidade futura em troca de alívio imediato nas contas públicas.
A situação se torna ainda mais sensível ao se considerar quem passa a controlar a companhia. O Grupo Equatorial assume a gestão de um serviço essencial à vida de milhões de mineiros. Água e saneamento não são mercadorias comuns, mas direitos fundamentais, indispensáveis à saúde pública, à dignidade humana e ao desenvolvimento urbano. Quando esses serviços são submetidos à lógica do mercado, cresce o risco de que o interesse coletivo seja substituído pela busca de rentabilidade e retorno aos acionistas.
A experiência recente da privatização da Sabesp, em São Paulo, é frequentemente citada por entidades sindicais e movimentos sociais como um alerta. Entre as principais preocupações estão o possível aumento de tarifas, a redução de investimentos em áreas menos lucrativas, a precarização das condições de trabalho e a queda na qualidade do atendimento à população.
Mas a mudança vai além dos números. Ao longo de sua trajetória, a Copasa também desempenhou papel relevante em iniciativas sociais, culturais e ambientais em diversas regiões de Minas Gerais. Sua atuação extrapolava a prestação de serviços de água e esgoto, contribuindo para projetos de inclusão social, preservação ambiental e desenvolvimento comunitário.
Os trabalhadores da companhia compreenderam desde o início o alcance dessa transformação. Mobilizações, protestos e greves marcaram a resistência à privatização. Para essas categorias, o saneamento básico deve ser tratado como um direito essencial e não como uma oportunidade de negócio.
A privatização da Copasa não encerra o debate sobre o futuro do saneamento em Minas Gerais. Ao contrário, inaugura uma nova etapa de acompanhamento e cobrança por parte da sociedade. Caberá aos novos controladores demonstrar se as promessas de eficiência e melhoria dos serviços serão efetivamente cumpridas.
O fato concreto, entretanto, é que Minas Gerais deixou de controlar uma de suas mais importantes empresas públicas. Uma companhia rentável, estratégica e historicamente vinculada ao desenvolvimento do Estado passou ao controle privado. Para seus defensores, trata-se de modernização. Para seus críticos, de uma decisão que transfere ao mercado um patrimônio coletivo construído ao longo de gerações.
Referências
- Processo de desestatização da Copasa e documentos oficiais do Governo de Minas Gerais.
- Registros da oferta pública de ações na B3.
- Demonstrações financeiras e relatórios anuais da Copasa (2024 e 2025).
- Comunicados ao mercado e documentos da operação envolvendo o Grupo Equatorial.
- Manifestações de sindicatos, movimentos sociais e parlamentares contrários à privatização.
A Editora

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