Lyra Paracatuense: 65 anos de música, resistência e amor por Paracatu
Uma história construída por mãos dedicadas, atravessada por desafios e mantida viva pelo compromisso de ensinar, tocar e emocionar gerações.
Há histórias que não se contam apenas com palavras. Precisam ser ouvidas. Em Paracatu, uma delas ressoa há 65 anos por meio dos instrumentos de sopro e percussão da Sociedade Corporação Musical Lyra Paracatuense, carinhosamente conhecida como Banda Lyra. Uma trajetória marcada pela dedicação, pela resistência e pelo amor à música, que atravessou gerações e se tornou parte da identidade cultural do município.
Uma noite de celebração e reconhecimento
Na noite de 7 de novembro, a data foi celebrada em um encontro especial, reunindo o prefeito Pedro Adjuto, da coordenadora pedagogica da Banda Lyra, Nubia André, integrantes da diretoria, músicos, familiares e amigos. A comemoração contou também com a presença do presidente da instituição, Ésio Mendes do Nascimento, em um momento de reconhecimento a todos que ajudaram a manter viva essa história.
O encontro foi realizado na sede do Buffet Vila do Príncipe, que também ficou responsável pelo serviço de alimentação. Os convidados puderam desfrutar de um cardápio preparado com cuidado, em um ambiente acolhedor, que contribuiu para tornar a noite ainda mais especial e festiva.
Um sonho que se transformou em história
Fundada oficialmente em 8 de outubro de 1961, a Lyra nasceu do sonho do maestro e professor José Gonçalves de Araújo, que desejava ensinar música e oferecer aos paracatuenses a oportunidade de aprender a tocar um instrumento. As primeiras aulas começaram na Escola Normal, hoje Casa de Cultura. Para chegar até lá, o maestro percorria as ruas da cidade com seu lampião nas mãos, passando pelo Beco dos Mal Casados, levando consigo a vontade de transformar vidas por meio da música.
Mais tarde, os ensaios passaram a acontecer em sua própria residência. Ali, entre partituras, instrumentos e muita disciplina, começava a ganhar forma uma história que se tornaria patrimônio afetivo de Paracatu. Dona Dirce, esposa do maestro, também fazia parte dessa construção: preparava o lanche para os músicos depois dos ensaios, e sua famosa farofa permanece na lembrança de quem viveu aqueles primeiros tempos.
Em 8 de outubro de 1961, uma assembleia realizada na casa de José de Araújo oficializou a criação da Sociedade Musical, com o propósito de manter uma banda e oferecer ensino gratuito de música. Entre os primeiros integrantes estavam Joaquim André Sobrinho, José Batista de Oliveira, Júlio Xavier da Silva, Jurandir Cunha Chaves, José Batista Rodrigues, José Maria André, José Odilon de Melo Peres, José Pereira Mundim, João da Abadia Alves e João Gualberto Monteiro Santos, além do próprio maestro e de outros colaboradores.
A primeira diretoria foi presidida por Ruy Jordão de Carvalho, tendo Joaquim André Sobrinho como vice-presidente e José Gonçalves de Araújo como diretor artístico. A instituição se sustentava com doações, contribuições de associados, subvenções e recursos provenientes de apresentações e serviços. Desde o começo, portanto, a continuidade da Lyra dependia do envolvimento e da generosidade de pessoas que acreditavam na força da música.
A inauguração oficial aconteceu em 28 de outubro de 1962, data do aniversário do maestro José de Araújo. Na ocasião, os músicos saíram em formação pelas ruas da cidade, com uniformes impecáveis, sapatos engraxados e quepes na cabeça, ao som dos dobrados, seguindo em direção às praças públicas. Era a música anunciando ao povo que uma nova história havia começado.
Mas manter uma banda viva nunca foi tarefa simples. Ao longo dos anos, a Lyra enfrentou dificuldades financeiras, falta de apoio e momentos de incerteza. Houve períodos em que a continuidade do trabalho dependeu quase exclusivamente da dedicação de seus integrantes. O apelo do maestro José de Araújo traduzia a preocupação daquele tempo: “A banda não pode morrer, está sendo reclamada pelo público”.
A frase atravessou os anos e parece continuar atual. Afinal, a resistência da Lyra está justamente na capacidade de seguir adiante, mesmo diante dos obstáculos.
Em 1967, a instituição recebeu o reconhecimento de utilidade pública federal, por meio do Decreto nº 61.704, de 13 de novembro. Em 1991, também foi reconhecida como entidade de utilidade pública municipal, pela Lei nº 1.725. Outros capítulos marcaram essa caminhada, como as comemorações do jubileu de prata, em 1987, e os 35 anos de atividades, em 1997, quando a banda realizou 13 apresentações, participou de 68 ensaios e promoveu 133 aulas para novos alunos. Números que revelam o esforço de músicos que conciliavam suas atividades cotidianas com o compromisso de manter a música presente na cidade.
Nessa história, nomes como Joaquim André Sobrinho, conhecido como “Seu Zote”, também ocupam lugar especial. Sua dedicação à Corporação foi lembrada por gestos simples e significativos, como levar camisas sobressalentes para ajudar músicos que não tinham uniforme completo. São pequenas histórias que revelam a dimensão humana de uma instituição construída muito além dos palcos e das apresentações.
Ao longo de seus 65 anos, a Banda Lyra esteve presente nos desfiles cívicos, nas solenidades oficiais, nas festas religiosas, nas procissões, nas cavalgadas e nas manifestações populares. Sua música acompanhou momentos de alegria, celebração e também de despedida, tornando-se parte das lembranças de muitas famílias paracatuenses.
Hoje, a missão permanece: ensinar música gratuitamente a crianças, jovens e adultos, utilizando a arte como instrumento de formação, convivência e cidadania. Por meio de iniciativas como o projeto Lyra em Movimento – Música, Educação e Cidadania, a instituição amplia sua atuação, levando oficinas e apresentações a bairros e comunidades, como o Quilombo de São Domingos e o Paracatuzinho.
Celebrar os 65 anos da Lyra é reconhecer o trabalho de maestros, músicos, dirigentes, alunos, familiares e colaboradores, inclusive daqueles que já partiram, mas deixaram suas notas gravadas na memória da cidade. É lembrar de José Gonçalves de Araújo, Joaquim André Sobrinho e tantos outros que acreditaram que a música merecia continuar.
Sob a proteção de Santa Cecília, padroeira dos músicos, a Banda Lyra Paracatuense segue escrevendo sua história. Porque uma banda não vive apenas de instrumentos, partituras ou apresentações. Vive de pessoas, de sonhos compartilhados e da disposição de não deixar o silêncio ocupar o lugar da música.
São 65 anos de resistência, cultura e dedicação. E enquanto houver alguém disposto a aprender, ensinar e tocar, a Lyra continuará fazendo aquilo que sempre fez: transformar música em memória e manter viva uma das mais bonitas expressões culturais de Paracatu.






























Comentários