José Roberto Peres encerra trajetória de mais de 50 anos na Embrapa 

 José Roberto Peres encerra trajetória de mais de 50 anos na Embrapa 
Foto: Fabiano Bastos
Peres (esquerda) sendo homenageado pelo chefe-geral da Embrapa Cerrados no Simpósio do Cerrado

Após mais de cinco décadas dedicadas à pesquisa agropecuária, o pesquisador José Roberto Peres encerrou sua trajetória na Embrapa com a convicção de ter participado de uma das maiores transformações da agricultura brasileira. Contratado em 1975, quando a Embrapa Cerrados dava seus primeiros passos, ele acompanhou desde o início o desafio de tornar produtivo um bioma que, até então, era considerado inadequado para a agricultura.

“Fui uma pessoa extremamente privilegiada”, resume Peres ao recordar o início da carreira, praticamente simultâneo ao nascimento da própria Embrapa Cerrados. Naquele momento, o Brasil ainda importava alimentos e buscava desenvolver tecnologias capazes de viabilizar a agricultura tropical. A criação da Embrapa e a escolha do Cerrado como nova fronteira agrícola marcaram o início desse processo.

Segundo o pesquisador, o grande diferencial da instituição foi investir na formação de pessoas. Ainda nos primeiros anos, centenas de pesquisadores foram enviados para cursos de pós-graduação no Brasil e no exterior, formando uma massa crítica capaz de enfrentar desafios inéditos para a agricultura tropical. “Não existia tecnologia para produzir no Cerrado. Era preciso construir o solo, desenvolver variedades adaptadas, criar sistemas de produção e levar tudo isso ao produtor”, conta.

Ao recordar os primeiros anos da instituição, Peres lembra que a infraestrutura era precária. Os laboratórios eram improvisados, pesquisadores dividiam pequenas salas e, em alguns casos, precisavam entrar pelas janelas para chegar aos locais de trabalho. Nada disso, segundo ele, diminuía o entusiasmo da equipe. “A gente esquecia até que existiam férias. O chefe precisava mandar a gente descansar”, relembra.

Para Peres, a geração de tecnologias em tempo recorde que permitiu a ocupação agrícola do Cerrado se deve em muito ao trabalho colaborativo que norteou o modelo de atuação da Embrapa desde o início. Esse modelo é baseado na integração entre centros de pesquisa, universidades, empresas estaduais de pesquisa, assistência técnica e produtores rurais. “Nós ganhávamos tempo porque pesquisávamos em rede. É um modelo extremamente eficiente”.

Entre os inúmeros episódios marcantes de sua carreira, um lá do início ganhou contornos emblemáticos. Convidado pelo então chefe de Pesquisa da Embrapa Cerrados, Wenceslau Goedert, para integrar a equipe da recém-criada Unidade, localizada em Planaltina-DF, José Roberto Peres deixou o laboratório do Departamento Nacional de Pesquisa e Experimentação Agropecuária (DNPEA), no Rio de Janeiro, onde estagiava sob a orientação da pesquisadora Johanna Döbereiner, referência mundial em fixação biológica de nitrogênio, e se mudou para Brasília. Antes de partir para Capital Federal, no entanto, decidiu levar com ele, no bolso, uma bactéria isolada de um nódulo de soja.

Esse gesto aparentemente simples acabou tendo enorme impacto na agricultura brasileira. A bactéria deu origem às primeiras estirpes selecionadas para inoculantes comerciais da soja. Esses inoculantes permitem a fixação biológica de nitrogênio, processo em que bactérias associadas às raízes transformam o nitrogênio presente no ar em uma forma que pode ser utilizada pela planta. O resultado é hoje uma expressiva redução no uso de fertilizantes nitrogenados e uma economia anual bilionária para a agricultura brasileira.

A dimensão do impacto dessa tecnologia pode ser observada no Balanço Social 2025 da Embrapa. Segundo a publicação, a fixação biológica de nitrogênio na cultura da soja proporcionou um benefício econômico estimado em R$ 37,9 bilhões em 2025, com adoção em mais de 47 milhões de hectares. O resultado evidencia a importância de uma tecnologia desenvolvida há décadas, que continua contribuindo para a redução dos custos de produção e para a sustentabilidade da agricultura brasileira.

Peres considera que sua principal contribuição como pesquisador foi a liderança do projeto “Seleção de estirpes de Rhizobium japonicum, para inoculação da soja, adaptadas às condições de Cerrado”. Como resultado das pesquisas, foram lançadas essas quatro estirpes que passaram a fazer parte do inoculante comercial em 1993 e continuam até hoje como as únicas recomendadas para a soja cultivada, não só para os Cerrados, como também para todo o Brasil.

Da pesquisa à gestão

Foi à gestão da Embrapa que Peres dedicou a maior parte do seu tempo profissional na instituição. Em 1988, atuou como chefe Técnico Adjunto da Unidade e de 1989 a 1993, exerceu pela primeira vez o cargo de chefe-geral. De 1993 a 2003, ocupou por 10 anos consecutivos a Diretoria Executiva de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa. E em 2004, assumiu a Chefia da então Embrapa Negócios Tecnológicos e Transferência de Tecnologia, onde ficou até 2009.

De 2011 a 2016, retornou à Embrapa Cerrados novamente como chefe-geral. De 2016 a 2023, exerceu o cargo de diretor presidente da Ceres – Fundação de Seguridades Social da Embrapa e parceiros do SNPA. Em 2024, retornou à Embrapa Cerrados quando orientou os trabalhos da comissão organizadora criada para planejar e executar as ações comemorativas aos 50 anos da Unidade, comemorado em 2025.

Depois de mais de 50 anos acompanhando a evolução da agricultura brasileira, José Roberto Peres afirma que deixa a Embrapa com a sensação de missão cumprida. “Para mim, o maior legado da instituição foi mostrar que ciência, planejamento e investimento em pessoas podem transformar uma região antes considerada improdutiva em uma das maiores potências agrícolas do planeta. É um orgulho olhar para o Cerrado hoje e saber que fizemos parte dessa história”.

Juliana Caldas (MTb 4861/DF)
Embrapa Cerrados

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