Artigo: Impactos positivos do projeto “Fruticultura irrigada do Vão do Paranã” ganham repercussão nacional
Fábio Gelape Faleiro e Lineu Neiva Rodrigues (Pesquisadores da Embrapa Cerrados)
Breno Lobato (Jornalista da Embrapa Cerrados)
Em reportagem veiculada no último dia 14 de junho, o programa Globo Rural, da TV Globo, mostrou os primeiros resultados e impactos positivos do projeto multi-institucional “Fruticultura irrigada do Vão do Paranã”. A iniciativa busca promover o desenvolvimento socioeconômico da região, no Nordeste de Goiás, a partir da produção de maracujá e manga em sistema irrigado, tendo como público-alvo mais de 2.500 agricultores familiares assentados de reforma agrária.
Trata-se de uma política pública idealizada pela Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Goiás (Seapa) em parceria com a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), a Embrapa Cerrados, o Senar Goiás, a Emater Goiás e as Secretarias de Agricultura de Flores de Goiás, Formosa e São João d’Aliança, municípios abastecidos pelas barragens do Rio Paranã e do Ribeirão Porteira.
Para iniciar o projeto, a Seapa, em parceria com a Codevasf, fez o estudo hidrológico da região e dimensionou um sistema de irrigação de 1 hectare de maracujá por gotejamento e 1 hectare de manga por microaspersão para ser fornecido a cada produtor contemplado pelo projeto. As espaldeiras para condução do maracujá também foram fornecidas com o investimento da Codevasf. A seleção dos produtores foi realizada com base em diferentes critérios relacionados à condição econômica, força de trabalho e possibilidade de captação de água.
Segundo a diretora da Área de Irrigação e Operações da Codevasf, Adriana Cristina Rossin, o projeto foi inspirado no projeto do Polo de Fruticultura Irrigada e Agroindustrial do Vale do São Francisco, na região de Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), e no projeto Jaíba, localizado no Norte de Minas Gerais. No projeto “Fruticultura irrigada do Vão do Paranã”, entretanto, não houve necessidade de investimentos em canais de distribuição de água, apenas nos sistemas de irrigação e espaldeiras para o maracujá.
Outra característica específica do projeto foi a necessidade de uma contrapartida financeira dos produtores contemplados para a construção do reservatório de água e da casa de máquinas, a aquisição de insumos e mão-de-obra necessários para o estabelecimento e a condução dos pomares de maracujá e manga. Por meio da política pública, a maioria dos produtores teve acesso a crédito em bancos e agências de fomento com um período de carência e baixa taxa de juros.
Operacionalização do projeto
Para operacionalizar o projeto, a Seapa e a Codevasf articularam uma rede de parcerias envolvendo atores relacionados à ciência, tecnologia e inovação (Embrapa Cerrados), à transferência de tecnologia e extensão rural (Senar e Emater Goiás) e às políticas públicas municipais, por meio das prefeituras dos municípios abrangidos pelo projeto, tendo em vista o auxílio, a articulação e a mobilização dos produtores, bem como a resolução problemas específicos de cada região ou comunidade, como as condições de logística ou de acesso a crédito e a mercados locais e regionais. Certamente, essa rede de parcerias institucionais e a determinação dos produtores rurais estão sendo fundamentais para o avanço das ações do projeto e a geração dos impactos positivos do ponto de vista econômico, social e ambiental, com o uso racional dos recursos naturais como o solo e a água.
O uso de tecnologia no sistema de produção de frutas tem sido um fator-chave para o sucesso do projeto “Fruticultura irrigada do Vão do Paranã”. A ciência, tecnologia e inovação e o acompanhamento de seus impactos positivos no projeto têm sido o alvo de ações de pesquisa e desenvolvimento e de transferência de tecnologia realizadas pela Embrapa Cerrados em parceria com a Codevasf. Essas ações são operacionalizadas por meio de um termo de execução descentralizada visando ao desenvolvimento e à implementação de estratégias de manejo da irrigação e de ferramentas para o monitoramento dos impactos socioeconômicos da iniciativa.
Para o manejo adequado da irrigação e o uso racional da água, três estações meteorológicas foram instaladas na região para fornecimento de dados climáticos e foi desenvolvido o aplicativo Irrigar para Desenvolver, que acessa de forma automatizada os dados das estações meteorológicas, calcula a evapotranspiração diária e gera informações simplificadas de recomendação da irrigação.
Para o monitoramento dos impactos socioeconômicos desde o início do projeto, foi necessária a interação da equipe da Embrapa Cerrados com todos os atores do projeto, gestores públicos, parceiros, agentes de transferência de tecnologia e, principalmente, com todos os produtores rurais contemplados. A partir dessas interações, foram desenvolvidas ferramentas de avaliação baseadas na metodologia do Diagnóstico Comportamental da Atividade Produtiva (DCAP), que já havia sido utilizada com sucesso para avaliação da produção de maracujá no Distrito Federal.
Com base no DCAP, os estudos de avaliação dos impactos socioeconômicos foram estruturados em sete blocos envolvendo os critérios de seleção dos produtores (bloco 1); a caracterização das propriedades (bloco 2); avaliações do conhecimento (bloco 3); motivação (bloco 4) e ações (bloco 5) dos produtores; culminando nas análises dos impactos econômicos, sociais e ambientais (bloco 6) e no relato dos casos de sucesso ao longo da execução do projeto (bloco 7).
O conhecimento da realidade dos produtores
Para o bloco 1, foram definidos sete indicadores para a seleção dos produtores, avaliando-se a aptidão do produtor para a atividade agrícola e os critérios de atendimento à adesão à política pública. Para o bloco 2, todas propriedades rurais foram visitadas para a análise de diferentes características relacionadas ao solo, infraestrutura disponível, atividades agropecuárias exploradas e fontes de renda.
Os blocos 3, 4, 5 e 6 envolvem as análises dos produtores quanto ao conhecimento (saber produzir maracujá e manga); à motivação (querer produzir maracujá e manga); às ações realizadas (produzir maracujá e manga) e as consequências relacionadas aos impactos gerados. Todos os produtores contemplados pelo projeto foram entrevistados para analisar o conhecimento e a motivação para produzirem maracujá e manga, bem como para conhecer a infraestrutura da propriedade rural antes da realização do projeto (T0) (Foto 1).
Foto 1: Visita a propriedade rural para obtenção de informações sobre o conhecimento e motivação dos produtores e sobre as características da propriedade antes da realização do projeto. Foto: Fábio FaleiroAs necessárias ações de transferência de tecnologia e extensão rural
As análises iniciais do bloco 3 (conhecimento) mostram que a maioria dos produtores não tinham conhecimentos básicos para a produção de maracujá e manga e, por isso, precisavam ser capacitados e acompanhados por meio de ações de transferência de tecnologia e extensão rural. Nesse sentido, diferentes estratégias de transferência de tecnologia foram utilizadas (Foto 2) como reuniões técnicas presenciais, dias de campo, palestras e a realização de cursos presenciais e utilizando a plataforma e-Campo de capacitação on-line da Embrapa e a plataforma Ater+ Digital.
Dessa forma, foram capacitados cerca de 20 agentes multiplicadores, 15 produtores e 15 gestores públicos em cursos presenciais sobre maracujá e manga na Embrapa Cerrados; em torno de 150 pessoas no dia de campo sobre boas práticas no manejo da cultura da manga e do maracujá; e aproximadamente 20 técnicos e gestores públicos sobre diagnóstico e controle de doenças e pragas do maracujazeiro e mangueira.
Outras centenas de profissionais e produtores rurais se capacitaram com os cursos on-line e gratuitos disponibilizados no e-Campo sobre o cultivo do maracujá e da manga, além dos cursos sobre boas práticas agrícolas na produção de maracujá e gestão e planejamento da empresa rural. A mais recente ação de transferência de tecnologia foi a disponibilização, na Ater+ Digital, das informações práticas sobre o cultivo do maracujá e da manga.
Foto 2: Ação de capacitação e transferência de tecnologia e extensão rural do projeto “Fruticultura irrigada do Vão do Paranã”. Foto: Fábio FaleiroAs análises iniciais do bloco 4 (motivação) mostraram que os produtores contemplados pelo projeto estão motivados, mas ainda inseguros quanto à capacidade financeira para arcar com o financiamento necessário. Muitos deles relatam que o projeto seria uma oportunidade para melhorar a qualidade de vida das suas famílias e, nesse sentido, iniciaram as ações com os primeiros plantios de maracujá e manga em setembro de 2023. As ações de extensão rural realizadas pelo Senar Goiás e pela Emater Goiás foram estratégicas e necessárias para a orientação e capacitação dos produtores no cultivo do maracujá e da manga, bem como do manejo e utilização dos sistemas de irrigação.
A interação entre as instituições de pesquisa e desenvolvimento, de transferência de tecnologia e extensão rural e os produtores rurais tem sido estratégica para o desenvolvimento do projeto. Além de subsidiar o uso de tecnologias no sistema de produção, essa interação tem permitido o levantamento de novas demandas para as ações de pesquisa baseadas em problemas enfrentados pelos produtores. Um exemplo é a necessidade do desenvolvimento e validação de tecnologias para enfrentar o problema da fusariose, doença que tem ocorrido em alguns pomares e comprometido a produção do maracujá. A tecnologia das mudas enxertadas desenvolvida pela Embrapa e parceiros tem sido preconizada para enfrentar esse problema.
Primeiros impactos socioeconômicos e casos de sucesso
Em menos de três anos após o início do projeto, as análises dos blocos 5 e 6 mostraram que alguns produtores tiveram pleno sucesso na implantação dos pomares, iniciando colheita dos maracujás depois de cinco meses do plantio das mudas no campo.
As análises iniciais do bloco 6 (impactos), com base nas primeiras colheitas de maracujás, são bastante animadoras. Os primeiros impactos econômicos do projeto mostram que alguns produtores, com apenas um ano de colheita de maracujá, já obtiveram renda suficiente para quitarem o financiamento. As implantações dos pomares de manga foram realizadas com sucesso e existe uma perspectiva das primeiras colheitas em 2026/27, o que irá contribuir para a saúde financeira do produtor rural.
As análises do bloco 6 relacionadas aos impactos em nível regional evidenciam um aumento da geração de emprego e renda nos municípios contemplados pelo projeto, com destaque para Flores de Goiás, onde foram realizadas com sucesso as primeiras implantações dos pomares de maracujás e mangas. Houve também um aumento dos investimentos estaduais e municipais em infraestrutura, capacitação e transferência de tecnologia com importante participação da Seapa, da Codevasf, da Embrapa, da Emater Goiás e do Senar Goiás. Além disso, produtores pioneiros do projeto passaram a ser agentes multiplicadores das tecnologias e das boas práticas agrícolas para a produção de maracujá e manga.
Outro impacto evidente foi a melhoria da logística e o aumento das oportunidades de comercialização de frutas na região. Com uma maior oferta de maracujás, logísticas de transporte foram melhoradas e houve crescimento do interesse de empresários do comércio atacadista e varejista da fruta. Também foi um importante impacto o início da construção de uma agroindústria em Flores de Goiás, o que viabilizará um novo canal de comercialização para os produtores da região. A melhoria na organização dos produtores tem sido mais um ponto importante do projeto, com a realização de reuniões técnicas e a criação de associações e cooperativas.
Os primeiros impactos positivos do projeto têm confirmado que a fruticultura irrigada é um vetor importante para o desenvolvimento regional. Produtores que iniciaram a colheita de maracujá se tornaram formadores de opinião, mostrando a viabilidade do projeto e as potencialidades da fruticultura. Este artigo relata como a fruticultura irrigada permite a geração de emprego e renda com a incorporação da mão de obra local em diferentes etapas da cadeia produtiva e a inclusão de pequenos e médios produtores.
Outra experiência bem-sucedida são agricultores produzindo maracujá com alta qualidade e obtendo o dobro da produtividade média nacional, que em 2024 era de pouco mais de 15,6 t/ha, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A produção de maracujá na entressafra também é um caso exitoso para a região do Vão do Paranã, permitindo uma remuneração extra para os produtores rurais. As primeiras safras de maracujás (Foto 3) têm permitido aos produtores a obtenção de recursos para incrementarem o investimento na propriedade com a diversificação da produção de frutas e hortaliças, aumentando a segurança alimentar e as fontes de renda.
Os primeiros resultados do projeto demonstram, assim, a viabilidade técnica e operacional da fruticultura irrigada. Os produtores que amealharam recursos suficientes para quitarem o financiamento com a primeira safra de maracujá já são um caso de sucesso no empreendedorismo rural. Alguns deles, inclusive, precisavam trabalhar na cidade para sobreviverem e, agora, o trabalho na propriedade rural proporciona renda suficiente para viverem apenas no campo, junto com a família.
Foto 3: Primeira safra de maracujá do projeto “Fruticultura irrigada do Vão do Paranã” em área de produtor. Foto: Fábio Faleiro
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A matéria exibida pelo Globo Rural ajuda a contar a história do projeto “Fruticultura irrigada do Vão do Paranã”. Temas importantes foram apresentados na reportagem, podendo ser citados: – A necessidade do planejamento do desenvolvimento regional sustentável do ponto de vista econômico, social e ambiental; – A importância do uso de tecnologias nos sistemas de produção de frutas tropicais como maracujá e manga no Cerrado para aumento da produtividade e rentabilidade dos pomares; – A viabilidade econômica e ambiental do cultivo de frutas na pequena propriedade; – A importância de políticas públicas de infraestrutura e acesso às tecnologias, ao credito e a novos mercados para viabilizar a prosperidade de pequenos produtores rurais; – A possibilidade de viabilizar a sucessão de gerações nas pequenas propriedades rurais; – A importância da organização dos produtores em associações e cooperativas; – A necessidade do envolvimento de vários atores ligados à pesquisa, transferência de tecnologia, boas políticas públicas e dos produtores rurais nos projetos de desenvolvimento regional; – E a melhoria da percepção de que o produtor rural é um empresário e deve sonhar alto, tendo em vista o aumento da renda e a melhoria da qualidade de vida no campo. |
Núcleo de Comunicação Organizacional – NCO

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