CENA ROCK DE PARACATU LAMENTA MORTE DE HUMBERTO COSTA ARAÚJO, O “TAZO”

 CENA ROCK DE PARACATU LAMENTA MORTE DE HUMBERTO COSTA ARAÚJO, O “TAZO”
Por Sandro Neiva
A cena rock de Paracatu perdeu um de seus personagens mais autênticos. Faleceu nesta semana Humberto Costa Araújo, o querido Tazo, músico, professor de inglês, agitador cultural e um dos nomes mais importantes do underground local nas últimas décadas. Tinha apenas 43 anos e enfrentava havia anos uma dura batalha contra o câncer, submetendo-se a inúmeras intervenções cirúrgicas. Não resistiu a mais um procedimento realizado em Uberlândia.
Natural de Carmo do Paranaíba (MG), Tazo escolheu Paracatu como cidade do coração. Viveu intensamente, como um verdadeiro cidadão do mundo. Morou em Londres, Moscou e passou por diferentes países do globo, carregando consigo duas paixões inseparáveis: a literatura e o rock pesado.
Filho do conhecido dentista Dr. José Humberto, Tazo cultivava uma personalidade forte, inquieta e absolutamente autêntica. Era daqueles sujeitos raros que conseguiam transitar naturalmente entre conversas sobre Charles Bukowski, Suicidal Tendencies, Machado de Assis, hardcore inglês e death metal sueco.
Nossa amizade nasceu justamente dessas afinidades. Passávamos horas falando sobre literatura clássica e música extrema. Quando viveu em Moscou, trocávamos impressões sobre autores russos que ambos admirávamos, como Tolstói e Dostoiévski. Comentávamos obras como A Morte de Ivan Ilitch e O Jogador, livros curtos apenas no número de páginas, jamais em profundidade. Tazo também me enviava fotografias de São Petersburgo, uma das cidades mais lindas do planeta.
Em uma de suas viagens pela Europa Oriental, esteve em Varsóvia, na Polônia, visitando uma namorada de origem eslava. Daquelas paragens me trouxe uma garrafa de vodka chamada Wyborowa, que acabaria dividida entre amigos em uma de tantas noites memoráveis embaladas por hardcore, metal e longas conversas madrugada adentro.
É bem verdade que brindamos juntos em inúmeros momentos. Em uma dessas noites, encontramos um garrafão de cinco litros de autêntica cachaça de rapadura paracatuense e reduzimos consideravelmente seu conteúdo ao som de hardcore, numa madrugada fria na casa de seus pais — um belo casarão de traços barrocos na Rua do Ávila.
As histórias eram muitas. Algumas quase cinematográficas. Como a vez em que, acompanhado de Carequinha e integrantes do Place of Warship, Tazo pegou a direção do velho Opala 76 de meu falecido pai e atravessou, a mais de 140 km/h, uma estrada de terra nos arredores do Paracatuzinho. Pura diversão!
Quando fui para Londres, em 2002, Tazo estava lá para me receber, gentil e prestativo, no aeroporto de Heathrow. Eu havia acabado de concluir o curso de Jornalismo pela Universidade Católica de Brasília e existia a possibilidade de atuarmos juntos em projetos ligados à imprensa musical. Falávamos sobre morar no Soho, próximo ao lendário London Astoria, histórica casa de shows do rock britânico, onde ele já havia assistido apresentações de diversas lendas do rock. Como tantas coisas da juventude, os planos não se concretizaram. Mas ficaram as memórias.
Já de volta ao Brasil, também o hospedei diversas vezes em minha antiga quitinete no Plano Piloto, em Brasília. Fomos juntos a um show do Cólera, na Funarte, e me lembro da admiração dele pela energia do punk rock brasileiro — algo significativo para alguém que já havia assistido, no Reino Unido, a bandas como GBH, Varukers e Chaos UK.
Em 2004, quando fui vocalista da banda punk Murro no Olho, Tazo chegou a traduzir uma de minhas letras para o russo e a interpretou de maneira feroz em um show realizado no Conic, tradicional reduto underground da capital federal.
Entre 2008 e 2010, fui seu aluno de inglês na escola Number One, em Paracatu. Professor competente e comunicativo, utilizava referências do universo do rock até mesmo nos exemplos em sala de aula. Também organizou shows independentes e ajudou a movimentar a cena cultural da cidade, sempre de maneira apaixonada e espontânea. Em um desses eventos, realizado no Bar da Andreia, entre o Arraial D’Angola e o Paracatuzinho, a polícia encerrou a apresentação por falta de alvará e Tazo acabou conduzido à delegacia. Como bons rockers inconsequentes da época, seguimos em comitiva — e alcoolizados — até a delegacia, para tentar resolver a situação.
Mas talvez sua contribuição mais marcante para o rock paracatuense tenha sido o Place of Warship.
Em março de 2007, após retornar ao Brasil depois de anos vivendo em Londres, Tazo, trazia na bagagem um exemplar de White Line Fever — lançado no Brasil como A Febre da Linha Branca —, autobiografia do lendário baixista Lemmy Kilmister, do Motörhead, falecido em 2015, autografado com a dedicatória: “Dear Humberto”.  Nessa época, Tazo montou no bairro Paracatuzinho um estúdio caseiro apelidado de CU — Centro Underground. O espaço rapidamente se transformaria em ponto de encontro de músicos, amigos e projetos experimentais.
Daquele ambiente surgiria inicialmente o Waraculo, projeto embrionário que mais tarde daria origem ao Place of Warship, banda idealizada por Tazo e fortemente influenciada pelo death metal europeu dos anos 1980 e pelo hardcore britânico old school. Bandas como Bolt Thrower, Dismember, Discharge e English Dogs serviam de referência para uma sonoridade pesada e extremamente agressiva.
As letras, escritas por Humberto, carregavam a influência direta do underground britânico vivido por ele durante seus anos na Europa. Ao lado de Wesley Reis e Daniel Sabino, o grupo construiu uma trajetória respeitada dentro do circuito underground mineiro.
A banda realizou apresentações memoráveis em cidades como Uberlândia, Araguari, Unaí, Brasília e João Pinheiro. Tive a felicidade de acompanhá-los numa dessas viagens, quando fui com eles a Uberlândia e testemunhei uma apresentação explosiva, daquelas que enchem de orgulho qualquer apaixonado pelo rock autoral produzido no interior das Gerais.
Segundo o próprio Tazo, um dos shows mais intensos aconteceu em João Pinheiro, em setembro de 2008. “Um inferninho lotado, público insano, calor absurdo e performance perfeita”, recordou em um depoimento para o livro Paracatu Rock City – uma história de rock´n´roll no Noroeste de Minas, de minha autoria.
Após um período de inatividade, Humberto ainda retomaria o nome Place of Warship para gravar, em Uberlândia, o EP Itinerant Regress, lançado em 2013.
Nos últimos anos, já vivendo de forma mais clean, tranquila e disciplinada, criou no Centro Underground um pequeno bar temático chamado O Velho e o Bar, inspirado claramente no universo de Ernest Hemingway — outro de seus autores favoritos. E talvez exista aí uma metáfora inevitável.
Assim como o velho pescador de O Velho e o Mar, Tazo também foi um sujeito obstinado, resistente e teimosamente apaixonado pela própria existência. Viveu à sua maneira, sem concessões.
Também de Hemingway conversamos uma vez sobre Por Quem Os Sinos Dobram, – obra sobre a guerra civil espanhola e que inclusive, inspirou o título de um álbum de Raul Seixas.
Em 2025, durante o festival Noroeste Rock Minas Attack, tive a satisfação de intermediar a reconciliação entre Tazo e outro velho nome da cena rocker local, após anos de desavenças. Foi um momento muito especial para mim.
Ficam as memórias, as histórias improváveis, as discussões sobre livros e discos, as viagens, os excessos da juventude e, principalmente, a marca profunda deixada por ele na história do rock paracatuense.
Tazo foi daqueles personagens que não passam despercebidos pelo mundo.
E justamente por isso deixam saudade.
Rest in peace, man!

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O Lábaro

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