Carne Crua, romance de Marta Andrade, escancara feridas abertas do viver feminino no sertão mineiro

 Carne Crua, romance de Marta Andrade, escancara feridas abertas do viver feminino no sertão mineiro

 

Em narrativa forte e envolvente, a autora e poeta dá voz à protagonista que, mesmo perdida em suas dores, se movimenta adiante

 Projeto literário de Marta Andrade é inspirado no Território do Grande Sertão:Veredas, obra de Guimarães Rosa

 Na inquietude visceral que atravessa o caminhar de muitas mulheres em nossa sociedade, a psicanalista Marta Andrade narra poeticamente as dores da vida no sertão mineiro em seu romance. Por meio de uma protagonista enigmática e solitária, que escolhe viver uma vida nunca sonhada, a autora e poeta abre caminho por dentro da carne crua e, por isso, viva. Ao longo das páginas, Marta expõe as violências cotidianas e seculares que atormentam as mulheres quilombolas e de comunidades tradicionais, além do desafio que pode ser olhar para dentro de si e lidar com o desconhecido que escapa para além daquilo que se acha que é.

A narrativa se aprofunda na jornada de uma protagonista que está aprisionada a um modelo de amor, vivenciado por muitas mulheres, e transmitido de geração a geração.  Nesse modelo, ainda enraizado em nossa contemporaneidade, dá-se o nome de amor a aquilo que no fundo é a colonização dos sentimentos, dizeres e corpos das mulheres impondo uma narrativa de silenciamento e subjugação pelo masculino. O tempo em Carne Crua transcorre de forma circular, há uma dança entre presente, passado e futuro, onde qualquer um destes pode terminar ou começar uma cena, em uma incerta passagem dos fatos. A personagem principal, que apostou em um amor, extrapolando territórios, vive a experiência da alteridade radical, seja geográfica, no amor e em si mesma, e é inspirada na escuta de mulheres reais de comunidades quilombolas do sertão mineiro, onde a escritora foi participar da trajetória sócio-eco-literário O Caminho do Sertão de Sagarana ao Grande Sertão: Veredas, e atualmente coordena projetos junto a estas comunidades do território do Norte Mineiro.

“Há três anos, eu fui morar no norte de Minas Gerais, onde participei de uma travessia socio-eco-literária chamada ‘O caminho do sertão’, no Território de Grande Sertão: Veredas, e inspirada na obra de Guimarães Rosa. Participei desse projeto em julho de 2022 e me apaixonei. Sou psicanalista de formação e, por esses caminhos, passei a escutar as mulheres das comunidades quilombolas e tradicionais, e acabo escutando também geograficamente o território (a terra, a serra, as veredas). São comunidades afastadas, de difícil acesso, nas quais as pessoas têm poucos recursos de saúde e vivem em insegurança alimentar. Através da escuta da fala dessas mulheres, pude perceber a poesia e as dores desse lugar”, diz Marta Andrade.

A vida à beira do vazio

Em meio ao desfazer de expectativas, com o pano de fundo da paisagem do cerrado mineiro, as tristezas da protagonista, os elementos da natureza e a solidão tornam-se personagens em vários momentos da narrativa. A experiência de estranhamento interfere na própria carne da protagonista, trazendo a crueza da vida tanto em seu caráter de inédito como em sua dureza, empurrando a protagonista adiante e, com coragem, encarando os novos arranjos que se fazem em sua vida. Para além das violências, imposições masculinas e silenciamento social, a mulher escolhe insubordinar-se perante a vida cotidiana, e reflete sua força diante do que a oprime, erguendo poeticamente sua voz e inspirando outras a seguir em frente com coragem.

Sobre a autora

Marta Andrade é psicanalista lacaniana. Escutadeira por ofício, enveredou pelos caminhos da escrita na tentativa de fazer passar algo que se escuta no vão das palavras. Na escuta do território geográfico e linguajeiro e das Comunidades Quilombolas do Norte de Minas Gerais, encontrou o som do silêncio e das folias, foi acolhida pelos moradores das comunidades por onde segue escutando o miudinho das estórias e histórias contadas e cantadas. Teve a honra de ser convidada a compor os grupos de dança tradicionais nas Comunidades Quilombolas dos Buraquinhos, Barro Vermelho 1 e das Comunidades tradicionais do Morro do Fogo e Serra das Araras, município de Chapada Gaúcha – MG. De lá, segue bordando com palavras e rodando a saia e o verso entre veredas e buritis.

 

Ficha Técnica

Carne Crua

Marta Andrade| Editora Patuá, 2025 | Rio de Janeiro

168 páginas; 14 X 21cm

ISBN: 978-65-281-0082-8

Assessoria de Imprensa

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O Lábaro

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