O Fliparacatu se despede deixando poesia no caminho

 O Fliparacatu se despede deixando poesia no caminho

4ª edição do festival encerra programação com Gabriel Dearo e Manu Digilio, o Slam Galeria e uma celebração das vozes, da infância e da produção literária de Paracatu

O sertão, que durante cinco dias se fez encontro, memória, pensamento e palavra, chegou ao último dia de sua travessia literária. Neste domingo (30), o 4º Festival Literário Internacional de Paracatu – Fliparacatu encerrou sua programação com atividades gratuitas e acessíveis no Centro Histórico da cidade, reunindo leitores, escritores, crianças, jovens, artistas e admiradores da literatura.

Em 2026, sob o tema “Sertão em Nós: Meu Lugar no Mundo”, o festival lançou um olhar para dentro e para fora, entrelaçando identidade, pertencimento, memória e território. A edição também marcou os 70 anos da publicação de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, e o centenário de nascimento do geógrafo Milton Santos, dois nomes que ajudaram a ampliar as maneiras de compreender o Brasil e seus muitos sertões.

No domingo de despedida, a literatura encontrou a infância e a imaginação. No auditório da Fliparacaatu, recebeu Gabriel Dearo e Manu Digilio, criadores da série best-seller As Aventuras de Mike. Com personagens que conquistaram crianças e adolescentes no Brasil e em Portugal, a dupla levou ao público o universo de suas histórias, marcado por humor, aventura e criatividade.

Juntos, Gabriel e Manu somam mais de 25 milhões de seguidores e 4 bilhões de visualizações em seus canais no YouTube. No Fliparacatu, chegaram também com o lançamento mais recente da dupla, Super Capivara, novo livro em quadrinhos publicado pelo selo Outro Planeta, da Editora Planeta.

A história acompanha Robson, uma capivara preguiçosa que, de maneira inesperada, adquire habilidades extraordinárias e se vê diante do desafio de se tornar um herói. Entre humor, ação e aventura, a obra reafirma uma das forças mais bonitas da literatura: a capacidade de transformar o cotidiano em imaginação e fazer nascer heróis onde menos se espera.

Poesia toma a palavra

Se a manhã foi dedicada ao universo infantil, a poesia ocupou o palco para mostrar que a literatura também pode nascer do corpo, da voz, da rua e da experiência cotidiana.

Na programação regional, o Slam Galeria reuniu oito poetas de Paracatu em uma competição de poesia falada organizada pelo Coletivo Galeria Arte & Cultura, ponto de cultura dedicado à arte urbana, à literatura periférica e à cultura hip-hop.

Os participantes apresentaram textos autorais de até três minutos, em três rodadas, diante de um público que não apenas assistiu, mas também fez parte da disputa. As performances foram avaliadas por jurados escolhidos na plateia, seguindo as regras do movimento nacional de slam.

Mais do que uma competição, o Slam Galeria levou ao encerramento do Fliparacatu a força de uma literatura viva, pulsante e contemporânea. Uma poesia que não precisa esperar o silêncio das páginas para existir: ela chega pela voz, pelo ritmo, pelo corpo e pela coragem de dizer.

Ao valorizar oito poetas da cidade, o festival também reafirmou que o sertão literário não está apenas nos grandes nomes da literatura brasileira. Ele está nas vozes que nascem aqui, nas histórias que atravessam as ruas de Paracatu e nos versos que encontram seu primeiro palco diante da própria comunidade.

O sertão também se vê

Durante os dias do festival, a literatura dialogou ainda com as artes visuais e com diferentes formas de interpretar o território.

Na Praça da Igreja do Rosário, o público pôde visitar gratuitamente a exposição inédita “O Sertão de Portinari”, com curadoria de João Cândido Portinari e parceria com o Projeto Portinari. A mostra reuniu obras que retratam paisagens e dinâmicas humanas do sertão brasileiro, incluindo telas da célebre série Retirantes.

Na Fundação Municipal Casa de Cultura, a exposição “Meu Lugar no Mundo”, do Grupo Matizes Dumont, apresentou nove obras inéditas inspiradas no pensamento de Milton Santos e no universo poético de João Guimarães Rosa.

Bordado, memória, território e literatura se encontraram na exposição, criando outras possibilidades de enxergar o mundo, e de compreender o lugar que cada pessoa ocupa nele.

Uma despedida que continua

 Com tradução simultânea em Libras e transmissão ao vivo pelo canal do Fliparacatu no YouTube, o festival ampliou o alcance de sua programação e levou a literatura para além dos espaços físicos onde os encontros aconteceram.

O 4º Fliparacatu foi apresentado pela Kinross, via Lei Rouanet do Ministério da Cultura, com patrocínio da Caixa e apoio cultural da Prefeitura de Paracatu, da Academia de Letras do Noroeste de Minas e do Sebrae. A idealização e a presidência são de Afonso Borges, com curadoria nacional de Sérgio Abranches e Calila das Mercês, curadoria de atividades locais de Daniela Prado e curadoria infantojuvenil de Rafael Nolli.

E assim, depois de cinco dias de encontros, livros, debates, exposições, música, infância e poesia, o Fliparacatu fechou suas portas, mas deixou abertas muitas janelas.

Porque um festival literário não termina exatamente quando acaba a programação. Algumas palavras continuam caminhando pelas ruas. Alguns versos permanecem ecoando. Algumas histórias encontram o leitor e passam a morar dentro dele.

Em Paracatu, o sertão foi palavra e foi escuta.

E, por alguns dias, a palavra encontrou um lugar no mundo.

 

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O Lábaro

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