Crise humanitária leva Comitê JusPovos a visitar aldeias Maxakali

 Crise humanitária leva Comitê JusPovos a visitar aldeias Maxakali
 Após escuta ativa dos indígenas, foi criada a “Carta de Águas Formosas”, com as principais medidas a serem adotadas

Foto em destaque: Os Maxakali da comunidade de Pradinho puderam apresentar suas demandas por meio de escuta ativa (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

O agravamento da crise humanitária vivida pelo povo Maxakali, que habita parte da região Nordeste de Minas Gerais, na divisa dos Vales do Jequitinhonha e do Mucuri, foi responsável pela realização antecipada do IV Encontro do Comitê Interinstitucional sobre Povos Tradicionais de Minas Gerais (JusPovos), integrado por membros de dez instituições do Sistema de Justiça, entre elas o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG).

Nos dias 22 e 23/7, integrantes do JusPovos se reuniram em Águas Formosas para uma escuta ativa da comunidade indígena Tikmu’un Maxakali. Eles ouviram pedidos de ajuda de um povo que já habitava o País antes da chegada dos portugueses, em 1500, e que, atualmente, vive uma crise humanitária considerada grave.

No primeiro dia, as autoridades foram até as aldeias de Pradinho e de Água Boa para a escuta in loco de indígenas. Pacientemente, sinalizando um voto de confiança, eles ouviram os discursos proferidos pelos membros do comitê.

No segundo dia, a equipe do JusPovos se reuniu com lideranças de cinco aldeias – Água Boa, Pradinho, Escola Floresta, Verde e Cachoeirinha – na sede do clube AABB, em Águas Formosas.

Como resultado dos encontros e da escuta ativa, foi redigida a “Carta de Águas Formosas”, que formaliza o compromisso das instituições com as comunidades do povo Maxakali.

Confira a íntegra da “Carta de Águas Formosas”

A aldeia Pradinho foi a primeira a ser visitada pelos integrantes do Comitê JusPovos (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

Mortalidade infantil
Entre os vários problemas relatados pelo povo Maxakali, o que mais chamou a atenção das autoridades foi o índice de mortalidade infantil nas aldeias, que chega a ser 30 vezes maior do que a média das crianças não indígenas que vivem na região.

As aldeias Maxakali registram média de 66,7 mortes a cada mil nascidos vivos, quase seis vezes superior à média nacional. Além disso, 15% das crianças indígenas morrem ainda na infância, contra taxa de 0,5% entre as não indígenas.

As estatísticas também revelam um dado preocupante em relação à expectativa de vida: pouco mais de 2% do povo Maxakali chega a viver até 60 anos – a média da população brasileira é de 76 anos. Outros pontos considerados preocupantes pelos integrantes do Comitê JusPovos foram: abuso de álcool, depressão e elevado número de autoextermínio.

Ação Civil Pública
Esses números fazem parte de estudo realizado pelo Laboratório Interdisciplinar e Interepistêmico em Saúde Coletiva (Lisc) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Os dados serviram de base para, em 9/7, o Ministério Público Federal (MPF) instaurar uma Ação Civil Pública (ACP) contra o Governo Federal, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), o Governo de Minas Gerais e os municípios de Bertópolis, Águas Formosas, Santa Helena de Minas, Ladainha e Teófilo Otoni.

A ACP demanda que as instituições citadas promovam ampla reestruturação da assistência oferecida aos Maxakali, evitando novas mortes entre os indígenas.

O superintendente de Saúde do TJMG, desembargador Alexandre Santiago (centro), e a coordenadora-adjunta do Cejusc Povos e Comunidades Tradicionais do TJMG, desembargadora Régia Ferreira de Lima (centro), participaram da escuta ativa nas aldeias Maxakali (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

Parceria
A coordenadora-adjunta do Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania para demandas de Direito relativos a indígenas, quilombolas e demais povos e comunidades tradicionais da Justiça de 1º e 2º Graus (Cejusc Povos e Comunidades Tradicionais) do TJMG, desembargadora Régia Ferreira de Lima, participou dos encontros representando o presidente da Corte mineira, desembargador Vicente de Oliveira Silva, e a 3ª vice-presidente do TJMG e coordenadora do Cejusc Povos e Comunidades Tradicionais, desembargadora Shirley Fenzi Bertão.

A magistrada destacou a importância da escuta ativa para se entender a realidade vivenciada pela comunidade Maxakali:

“Os indígenas devem buscar seus direitos e justiça efetiva. Estão passando por momentos difíceis, e muitos sequer falam a língua portuguesa. As instituições têm que dar as mãos para encontrar soluções urgentes para a crise humanitária que assola os Maxakali, um grupo com língua própria, costumes, cultura e tradição.”

Credibilidade
Segundo o superintendente de Saúde do TJMG, desembargador Alexandre Quintino Santiago, a escuta ativa foi importante para que as instituições que compõem o Comitê JusPovos se fizessem presentes nas aldeias:

“Desta forma, podemos ver pessoalmente o que está acontecendo e construir políticas públicas para ajudar a comunidade Maxakali. O TJMG faz parte desse grupo por ter credibilidade e responsabilidade social para participar do auxílio. Todas as comunidades indígenas espalhadas pelo Estado merecem nossa atenção.”

O juiz Matheus Miranda ressaltou a criação da “Carta de Águas Formosas” como ponto de partida da resposta das instituições ao drama vivido pelos Maxakali (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

Plano emergencial
Para o juiz auxiliar da 3ª Vice-Presidência do TJMG, Matheus Moura Matias Miranda, o IV Encontro do Comitê JusPovos serviu de alerta para a urgência das medidas que precisam ser tomadas para aliviar o sofrimento dos indígenas:

“O artigo 231 da Constituição reconhece aos povos indígenas a sua organização social, os seus costumes e as suas tradições, ou seja, o princípio da autonomia. E autonomia exige que o Estado brasileiro, em geral, e o Judiciário, em particular, ouçam e compreendam as demandas desses povos antes de qualquer projeto ou ação, inclusive as iniciativas de cidadania e de acesso à Justiça pré-processual e de autocomposição, que estão entre os papéis do Judiciário.”

Ele destacou que a escuta ativa evidenciou o drama humanitário vivido pelos Maxakali, o que exige resposta à altura por parte das autoridades:

“Um dos itens da ‘Carta de Águas Formosas’ anuncia um plano emergencial para sanar a crise.”

Indígenas e autoridades se reuniram em duas aldeias da comunidade e na sede do clube AABB em Águas Formosas (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

O juiz Matheus Miranda é conhecido por sua atuação nas comunidades indígenas dos Vales do Jequitinhonha e do Mucuri. Ele ingressou na magistratura em 2019, começando a carreira justamente na Comarca de Águas Formosas.

A juíza da 1ª Vara Empresarial da Comarca de Belo Horizonte e eleita para vaga no Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG), Cláudia Helena Batista, ao tomar conhecimento das reivindicações dos Maxakali, dirigiu a palavra aos indígenas:

“Sou descendente de indígenas e quero pedir perdão a todos vocês pelo que a sociedade vem fazendo ao longo dos anos, provocando esta grande crise humanitária em um povo com cultura e tradições seculares e que merece o nosso respeito.”

O presidente do TCEMG e do comitê, conselheiro Durval Ângelo, defendeu a união das instituições para resolver os problemas das aldeias (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

Atuação
O presidente do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG) e do Comitê JusPovos, conselheiro Durval Ângelo, afirmou que conhece de perto a realidade dos Maxakali, com base em décadas de atuação na comunidade.

Ao avaliar os encontros nas aldeias, citou uma declaração atribuída ao matemático e filósofo grego Arquimedes (287-212 a.C.):

“Arquimedes, um sábio que viveu séculos antes de Cristo, teria dito: ‘Dê-me uma alavanca e um ponto de apoio que eu modifico o mundo’. Remetendo a frase à questão dos Maxakali, a alavanca é a ideia, e o ponto de apoio, a ação em prol dos indígenas.”

Segundo ele, o comitê “tem a função de resgatar a dívida que toda a sociedade brasileira tem com os povos originários e com os escravizados, que nunca foram reparados”:

“Os Maxakali só querem viver com dignidade, direito que deve ser assegurado. E cabe ao Estado cumprir seu papel.”

O procurador da República Edmundo Antônio Dias destacou a importância da atuação do Comitê JusPovos (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

Atuação conjunta
Representando o MPF em Minas, o procurador da República Edmundo Antônio Dias explicou que a situação dos Maxakali se degradou ao longo dos anos e que é fundamental “o braço forte do Comitê JusPovos para reverter o problema”:

“Somente com a soma de esforços é que vamos dar dignidade aos indígenas. A ação do MPF é abrangente e busca a alteração desse estado de coisas inconstitucional, com problemas graves em diversas áreas, principalmente na saúde.”

Ele ressaltou que é preciso “fortalecer com urgência o Sistema Nacional de Saúde Indígena, respeitando a cultura do povo, sua religião, espiritualidade e o diálogo entre as diferentes culturas”.

Após falar sobre o trabalho do JusPovos com os Maxakali, o juiz federal do Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF6) Paulo Alkimin dirigiu a palavra aos indígenas:

“Podem ter certeza de que todos os relatos dos integrantes das aldeias Água Boa, Pradinho, Escola Floresta, Verde e Cachoeirinha serão analisados para que encontremos uma solução para toda a comunidade Maxakali.”

Maria Diva Maxakali pediu melhoria na estrutura de atendimento às aldeias (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

Indígenas
Uma das lideranças da aldeia Água Boa, Maria Diva Maxakali agradeceu a presença das autoridades e disse que as esperanças por dias melhores para seu povo se renovaram:

“Queremos apenas preservar nosso povo, nossa cultura e nossos recursos naturais, que aos poucos vão sendo destruídos pelos brancos. Precisamos de mais estrutura, principalmente da Funai, que conta com apenas uma servidora para atender toda a região. As nossas crianças merecem crescer.”

Uma das lideranças da aldeia Pradinho, Marilton Maxakali destacou que a situação dos indígenas era agravada pelo comércio de produtos alimentícios a preços “muito acima dos praticados pelo mercado”:

“Muitos de nós não falamos português e somos enganados por comerciantes. Também precisamos cuidar do meio ambiente e melhorar a educação destinada aos indígenas.”

Marilton Maxakali denunciou abusos que estariam sendo cometidos por comerciantes contra os indígenas (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

O Comitê JusPovos
O Comitê Interinstitucional sobre Povos Tradicionais de Minas Gerais (JusPovos) é um órgão colegiado criado em agosto de 2025 e liderado pelo TRF6 para garantir e efetivar os direitos de povos indígenas, quilombolas, ciganos e outras comunidades tradicionais.

Ele reúne, além do TRF6 e do TJMG, as seguintes instituições: o TRE-MG, o Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região (TRT-MG), o TCEMG, o MPF, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), o Ministério Público do Trabalho da 3ª Região (MPT-MG), a Defensoria Pública de Minas Gerais (DPMG) e a Defensoria Pública da União (DPU).

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