Venezuela: entre o petróleo e o povo

 Venezuela: entre o petróleo e o povo

Quando disputas globais e o autoritarismo interno transformam a população na principal vítima

 

A história recente da Venezuela parece escrita com tinta espessa: uma combinação de acusações judiciais, sanções econômicas e um povo que avança, dia após dia, sob o peso de decisões tomadas longe de suas casas. No tabuleiro internacional, as peças se movem guiadas por interesses estratégicos; nas ruas de Caracas e Maracaibo, o que se move é a própria sobrevivência.

Do lado de fora, Washington fala a língua da lei. Processos, denúncias e recompensas anunciadas como antigos cartazes de “procura-se”. Não há algemas visíveis, mas existe um cerco simbólico: o presidente venezuelano é mantido como réu permanente no imaginário global. A Justiça surge como virtude no discurso oficial. Mas a política raramente caminha sozinha; costuma carregar consigo a sombra de suas conveniências.

Sob essa sombra está o petróleo. Negro, denso, ancestral. A Venezuela abriga uma das maiores reservas do planeta, e esse dado jamais foi apenas geológico. Críticos das sanções impostas pelos Estados Unidos afirmam que o estrangulamento financeiro não é simples punição moral, mas instrumento de pressão: enfraquecer a economia para redesenhar o poder. Nesse enredo, o petróleo deixa de ser riqueza nacional e passa a justificar disputas, como se o subsolo autorizasse intervenções sobre a superfície.

Enquanto governos trocam acusações, o cotidiano venezuelano se esgarça. A crise humanitária não cabe em relatórios técnicos. Ela aparece no prato vazio, no hospital sem insumos, na migração forçada que atravessa fronteiras a pé. O governo de Caracas aponta o “bloqueio” externo como causa central do colapso. Organismos internacionais, porém, desenham um quadro mais complexo: as sanções pesam, mas também pesam a má gestão, a corrupção e a repressão que sufoca vozes dissidentes. A verdade, como quase sempre, não reside em um único culpado.

Este é o nó venezuelano: soberania contra influência, autodeterminação contra interesses globais. Em nome da democracia, aplicam-se punições que recaem sobre civis. Em nome da resistência, perpetuam-se práticas que ferem direitos básicos. Entre o martelo das potências e a bigorna do autoritarismo interno, quem se deforma é o povo.

Um editorial não resolve conflitos, mas pode formular perguntas incômodas. Até quando a Justiça internacional será seletiva? Até quando recursos naturais servirão como senha para intervenções travestidas de princípios? E, sobretudo, quem responde pelo tempo roubado de uma geração inteira de venezuelanos?

A Venezuela segue ali, inteira em território, mas fraturada em destino. Enquanto o petróleo permanece no chão e as acusações circulam nos gabinetes, o país espera, não por salvadores externos ou discursos heroicos, mas por um futuro em que sua maior riqueza não seja o que se extrai da terra, e sim o que se preserva da vida.

A Editora

 

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