TROPEÇOS E ENCONTRÕES

 TROPEÇOS E ENCONTRÕES

 

Pouco importa se você se sente a pessoa mais santa existente na face da terra, ou se ao fazer uma autoanálise concluir que você simplesmente é a pessoa mais linda e correta, se cumpre todas as obrigações sugeridas por sua religião e de quebra, segue à risca e religiosamente os ditames de todas as leis.   Tal qual é exata a soma de dois mais dois, a trajetória da sua vida lhe reservará maiores ou menores instantes ruins que, caso você pudesse, você certamente os apagaria, ou, pularia essas “benditas fases ou estágios”.   A atividade laboral que exerci por vinte anos, a exemplo de tantas atividades de outras pessoas me reservou alguns solavancos.   Há quem diga dessas profissões que deveríamos batizá-las de “sacerdócio”, e deverasmente, certos trabalhos exigem mesmo imensurável sacrifício.   Pensando nisso recordei de uma narrativa relacionada a uma atendente de um ambulatório, onde um paciente se referiu àquela profissional como se ela “não sentisse” os males de lidar com o sofrimento dos outros, tipo, fosse insensível.   A cordial enfermeira assim manifestou:  – Ora senhor! O calor que todos vocês sentem nesse ambiente sem refrigeração também atinge meu corpo, dói também em mim dizer às pessoas que não temos os medicamentos necessários, e mais, choro sem externar minha tristeza por cada vida que se perde, sou também de carne e osso, apenas, para executar minha árdua missão, me preparo a cada dia, buscando em Deus força, para junto dos familiares não me desesperar nos momentos em que alguém tem de mostrar força.   Nesse mergulho de lembrança, me veio em mente alguns fatos, tipo quando: *Durante oito longos meses, uma viúva me ligava a cada plantão e me fazia repetir, d e t a l h a d a m e n t e, todos os passos de um atendimento de acidente onde o esposo dela falecera, e Deus me fortalecia e eu buscava na memória aquele triste fato, e pacientemente, relatava de novo o acontecido enquanto aquela sofredora chorava.   Com o tempo as chamadas no meu plantão foram se tornando cada vez mais esparsas…..até parar.   *Noutro momento, ao ser acionado chego ao local de uma tragédia, um condutor sem vida, a irmã sem forças para sair do veículo chorava no banco traseiro, a mãe, uma senhora de cor escura que nem eu, sentada ao lado do filho que vira falecer rezava em alto e bom tom um pai nosso, rapidamente, após buscar e não ver resposta positiva nos sinais vitais do condutor do veículo, me coloquei junto àquela boa senhora (aí sai de cena o policial, agente da lei e, como GENTE normal) me pus a junto com ela orar, enquanto obviamente providenciava a remoção dos feridos ao hospital.   *Em outra ocasião vi a morte de perto, enquanto segurava com todas as minhas forças um caminhoneiro desesperado, de forma súbita o cidadão se lança para debaixo de uma carreta e quase me leva junto, Deus me deu força e consegui manter a mim e ele a salvo, mas por um triz, pois o cidadão queria de todas as formas suicidar, o motivo, explico: viajavam dois motoristas em duas carretas distintas, um deles no dia do próprio aniversário saiu da pista com seu possante e no acidente faleceu, o segundo motorista ao ver o amigo, gritava que devia tê-lo protegido, e, mais de uma vez tentou se enfiar debaixo dos caminhões que seguiam pela rodovia federal, coube pois a mim agir e evitar que mais uma família ficasse sem seu arrimo.   Apenas a titulo de ilustração, entendi por bem mencionar os três acontecimentos acima, que foram por certo, momentos extremamente ruins da minha experiência enquanto servidor publico, no entanto fica o exemplo que para todos nós, por mais bonita que pareça ser a caminhada, haverão TROPEÇOS, esbarraremos em inúmeros obstáculos no nosso dia a dia, algumas trombadas e ENCONTRÕES deixarão marcas profundas.   A ideia de um tapete de perfumadas flores no nosso caminho não passa de utopia.   Mais de uma vez ouvi das pessoas que “o meu trabalho era um sonho”, coitados, não nego que efetivamente tem uma parte gratificante e boa, mas quem assim me via, só tinha olhos para as “pingas que eu tomava”.   Há estudos baseados em estatística que demonstram que quem exerce certos tipos de atividades vivem em média, quinze por cento menos.   É o meu caso, creio que pago um preço por carregar por décadas na minha memória, os registros vivos dos TROPEÇOS e ENCONTRÕES ruins que minha profissão me reservou.   Penso, que como humanos é necessário buscarmos alternativas que minimizem as sequelas deixadas pelos momentos ruins e marcantes que por alguma razão enfrentamos no passado, entendo que se não for a solução, seria ao menos uma forma de driblar a estatística e tentar viver bem e um pouco mais, superando a média.  O que posso afirmar sem medo de errar que na minha cabeça, há um bom espaço do meu HD ocupado com os registros ruins dos meus ENCONTRÕES, principalmente aqueles memorizados enquanto trabalhei nas rodovias.

 

Miguel Francisco do Sêrro – Historiador/Advogado

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