RITA E O VENTO

 RITA E O VENTO

Setembro, quase todos nós de tempo em tempo olhamos para o nada (horizonte), um sol e calor de rachar mamona, nuvem de chuva nenhuma habita o céu, dias tristes.   Aristides na praça aproveita uma leve e rara brisa que surge, sem camisa recosta o corpo num banco de cimento, observa um pica-pau gastando o bico num tronco seco, e, ao som daquelas batidas deixa o pensamento viajar.   Recorda ele da infância, ali mesmo alguns garotos ficavam o dia todo chutando um trapo de bola, o instrumento da diversão era uma bola velha sem câmara, recheada de panos, era uma algazarra só, depois de alguns chutes todos paravam para manutenção, pedaços de pano eram recolhidos e recolocados dentro da velha e amada bola, Aristides, ora, estava entre os guris.   Um tempo depois um soprar mais forte faz cair algumas folhas, a camisa sem manga é lançada ao solo, Aristides com sua bermuda escura se levanta, retira a sujeira do banco e de novo busca uma posição agradável, meio sentado, meio deitado e de novo, pula de fase e traz na memória sua fase juvenil.   Era festa, aniversário da cidade, bem na rua abaixo da praça as meninas brincavam de roda, Rita era dele a preferida, menino bobo chegava a chorar de tristeza, Rita só tinha olhos para Vicente, tempo ruim aquele, pensa Aristides.   A poeira vinda de longe denuncia que O VENTO aumentou a dose, quase todos saem da praça, Aristides não, na memória vem imagens tristes, de uma só vez um raio atingiu a choupana onde morava, sua mãe e o único irmão calaram sem vida, o pai, ora, foi para o norte e ninguém deu mais notícias.   Instantes depois O VENTO mescla suas rajadas com gotas de mansa chuva, Aristides com a camisa na cabeça inicia sua caminhada para casa, no semblante nitidamente podemos ver um largo sorriso, lembra por fim ele que num dia chuvoso, tirou do seu corpo uma capa cedendo para sua predileta quando vinha da Escola Antônio Carlos.   Aí sim, a tacada certeira de Aristides determinou com quem ficaria Rita.   Ao percorrer dois quarteirões ouvem-se seis batidas num portão, Aristides diz: -Cheguei!   Eis que a tão desejada menina da época juvenil lhe recebe com caloroso abraço.   Por um instante Aristides lembra, o mesmo VENTO que leva, pode trazer.   É preciso ter fé e esperar.

Miguel Francisco do Serro – Advogado/Historiador

 

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