Representantes de 14 países conhecem a ciência que transforma a agricultura no Cerrado
Representantes de 14 países de quatro continentes – África, América do Sul, Europa e Oceania – estiveram na Embrapa Cerrados na primeira semana de outubro para conhecer como a pesquisa pública vem contribuindo para transformar o Cerrado em uma das mais importantes regiões produtoras de alimentos do mundo.
No dia 6, foi a vez de participantes do Nuffield Global Focus Programme 2026. No dia 7, o centro de pesquisa recebeu uma delegação de países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), em visita organizada pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil).
O Nuffield Global Focus Programme seleciona agricultores e profissionais do setor agropecuário de todo o mundo para uma viagem de estudos de 45 dias por diferentes continentes. O grupo deste ano é formado por representantes da indústria avícola, da pecuária, da produção de grãos e de mel, além de cientistas, pesquisadores agrícolas e empreendedores do Reino Unido, da Austrália, do Zimbábue, do Malaui, da Holanda, da Irlanda e do Brasil.
Na Embrapa Cerrados, o objetivo foi conhecer o papel da Empresa no desenvolvimento agrícola do bioma e discutir tecnologias com impacto direto na produção, especialmente em fertilidade e biologia do solo, sistemas integrados e cultivos nativos. “A Embrapa é um lugar de pesquisa que embasa os conhecimentos do Brasil, principalmente do bioma Cerrado. A ideia foi trazer produtores de todos os cantos do mundo para beber da fonte das informações produzidas aqui, ver o potencial de produção e de pesquisa do país e vivenciar, com as próprias mãos e os próprios olhos, a produção brasileira”, contou Luciana Klienam, integrante do Nuffield Brasil.
Guilherme Oliveira, também representante da organização, explicou que a Nuffield é uma associação internacional cujo programa de pesquisa em agronegócio busca fazer os participantes conhecerem diferentes realidades e aplicarem o aprendizado em seus países. O Brasil foi o último destino do roteiro, que passou antes por Austrália, Singapura, China, Romênia e França. “Não tem como escapar de mostrar a ambição da agricultura brasileira de ocupar o Cerrado e aumentar a produtividade. Hoje o país é um exportador mundial por causa dessa audácia de, no passado, tornar o Cerrado produtivo”, afirmou.
Mudando a imagem do Brasil
Segundo Sarah Whalley, cientista agrícola e gerente da Cicada Agritech, do Zimbábue, os estrangeiros reconhecem o Brasil como potência agrícola, mas desconhecem o histórico que levou a esse cenário. “Outras agriculturas são muito mais antigas. Aqui estamos falando de uma transformação que ocorreu, talvez, nos últimos 30 anos, e isso impressiona”, disse.
A pesquisadora contou que o Brasil sempre foi referência para o seu país: “Agricultores zimbabuanos fazem intercâmbios educacionais por aqui desde a década de 1990. Mesmo assim, a visita trouxe novidades para mim”.
Ela observou que a imagem do Brasil ainda está muito associada ao desmatamento para o cultivo de soja, mas que, ao conhecer parte das pesquisas e da produção agrícola, percebeu que essa imagem não corresponde totalmente à realidade: “Fiquei muito surpresa com a proteção da biodiversidade nas propriedades rurais. Eu não sabia que o Brasil tem essa exigência em todo o País. É realmente inspirador. Também me chamaram a atenção os sistemas integrados e a fixação de nitrogênio na produção de soja. É estimulante ver como os municípios e o governo nacional estão avançando na recuperação de pastagens degradadas e no reflorestamento”.
Durante a conversa com pesquisadores, o produtor rural brasileiro Leonardo Prandini lembrou que a produção do País saltou de cerca de 60 milhões para 180 milhões de toneladas em apenas 22 anos. Ele questionou se esse crescimento deve continuar e se o Brasil pode se consolidar também como grande exportador de milho. O chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Cerrados, Edson Sano, explicou que isso depende dos preços praticados pelo mercado, mas lembrou que, no Brasil, são feitos dois cultivos por ano agrícola. “A segunda colheita, a chamada safrinha, é de milho – 80% da produção nacional do grão vem desse sistema”, afirmou. Segundo ele, as condições climáticas, aliadas a tecnologias e recomendações técnicas, possibilitam mais de um cultivo por ano e impulsionaram o crescimento da produção brasileira.
CPLP: cooperação em agricultura
A visita da delegação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) integrou a programação do fórum em comemoração aos 30 anos da comunidade. Participaram representantes das agências de promoção de exportações e atração de investimentos dos países-membros – seis da África, além de Portugal e do Brasil –, com exceção de Timor-Leste, que não pôde enviar representante.
Segundo a assessora da Gerência de Relações Institucionais da ApexBrasil, Ana Lobato, o encontro buscou apresentar metodologias de atração de investimentos, inteligência de mercado, promoção de exportações e capacitação. A programação incluiu ainda visitas ao Instituto Butantan e ao Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), em São Paulo.
Em Brasília, a prioridade foi a agricultura, sobretudo a familiar – tema caro aos países participantes. “A Embrapa é conhecida mundialmente por esse trabalho de desenvolver alimentos e melhorias e de mostrar como, por meio da pesquisa, é possível ter bons resultados. O objetivo foi mostrar instituições brasileiras que podem contribuir e fazer parcerias, e compartilhar a experiência do que é feito no Brasil”, afirmou.
Interesses e oportunidades
Os visitantes conheceram iniciativas, tecnologias e boas práticas da Embrapa nas áreas de inovação, pesquisa agropecuária e desenvolvimento sustentável, entre elas a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) e a Bioanálise de Solo (BioAS). Joselina Carvalho, representante da Cabo Verde TradeInvest, contou que o tema central no país hoje é a segurança alimentar e a sustentabilidade. O arquipélago busca tecnologias de captação de água e de dessalinização de água salobra, áreas em que a Embrapa tem soluções, como a Barraginha e os trabalhos da Embrapa Semiárido.
Já Cláudia Pedro, representante de Aipex, que trata da Promoção de Investimento em Angola, destacou o potencial dos dados e estudos da pesquisa para orientar investimentos em seu país: “Nós temos que transformar potencialidades em oportunidades concretas. Com os números que vocês apresentam sobre a integração entre floresta, pecuária e agricultura, consigo direcionar o investidor e dizer: ‘Naquela região você pode fazer agricultura, mas desta forma, porque os dados e as recomendações indicam maior viabilidade de sucesso’”.
Para a ApexBrasil, a expectativa é que a visita abra caminho para parcerias em diversas áreas, conforme o interesse de cada país.

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