Quando o Cerrado desfila, a arte de Paracatu conta sua própria história
Arte na Passarela III reuniu artistas, artesãos, modelos e comunidade em uma noite de celebração da cultura, da fé e das riquezas do Cerrado mineiro
Apresentação Dalinha e Toninho
Na noite de 25 de setembro, o Largo da Jaqueira se transformou em um grande palco para a arte de Paracatu. Sob o olhar do público, tecidos, linhas, tintas, cores e formas ganharam movimento na terceira edição do Arte na Passarela, um projeto que nasceu para valorizar os artistas e artesãos da cidade e que, nesta edição, encontrou no Cerrado mineiro sua principal inspiração.
Mais do que um desfile, a noite foi uma celebração do território e das pessoas que ajudam a construir sua identidade. Cada peça apresentada carregava um pouco da natureza, da memória, dos saberes e da criatividade de Paracatu.
Promovido pela Associação dos Amigos da Cultura de Paracatu (AACP), o projeto teve como tema as riquezas do Cerrado, sua fauna, sua flora e suas águas. A proposta ganhou forma por meio da pintura, do bordado, do crochê e do macramê, mostrando que a arte também pode ser uma maneira de olhar para a natureza e reconhecer o lugar que ocupamos nela.
Fé, infância e natureza
A abertura da noite trouxe um momento dedicado à fé e às tradições. Nossa Senhora da Abadia, reconhecida como protetora do Cerrado, foi representada em uma performance de Janaína Campos, unindo religiosidade, arte e a força simbólica das mães que dedicam amor aos seus filhos.
As crianças também tiveram seu momento de encantamento. Ao som de uma canção que celebra a pureza e a beleza da vida, elas representaram animais do Cerrado.
Helena, de 4 anos, Olivia e Pietra, de 2 anos, e Esther, de 2 anos, apareceram como delicadas borboletinhas, lembrando aquelas que sobrevoam as margens das cachoeiras e córregos.
Esther, de 5 anos, representou o mundo das águas e os peixinhos que vivem nos rios e lagoas do Cerrado.
Helena, de 8 anos, trouxe o encanto do tucano, com seu bico grande e colorido.
Madalena, de 7 anos, homenageou a coruja, símbolo associado à sabedoria.
Maria Clara, de 10 anos, representou a elegância da seriema, enquanto Catarina, de 10 anos, levou à passarela o contraste entre o azul e o amarelo da arara-canindé.
Depois desse momento de delicadeza, teve início o desfile que colocou em cena a criatividade de artistas e artesãos de Paracatu.
Quando a natureza vira arte
A abertura do desfile ficou por conta de Almira Helena, que teve sua peça apresentada por Uldicéia Riguetti. Inspirada no algodão e ao som de Algodão, de Luiz Gonzaga, a criação resgatou uma parte importante da história de muitas famílias.
O algodão, mais do que matéria-prima, foi durante gerações elemento de subsistência. Da plantação à colheita, da cardagem à fiação e à tecelagem, o trabalho transformava a fibra em roupas, cobertores e tecidos usados no cotidiano. Na passarela, essa memória ganhou forma e significado.
Arely Neiva trouxe uma peça pintada com a imagem da seriema e do pequi, dois elementos marcantes da paisagem e da cultura regional. A criação foi apresentada por Junio.
Com a técnica do macramê, Avani Silva Neiva transformou fios em uma peça que buscou traduzir a beleza exótica e singular do Cerrado. O modelo Zé do Badauê levou a criação à passarela.
A leveza das borboletas e dos pássaros apareceu no trabalho de Bárbara Medeiros, que utilizou as cores para retratar a beleza desses animais. A peça foi apresentada por Beth Gonçalves.
Bené, bordadeira conhecida pelo cuidado e pela exigência com o acabamento de seu trabalho, escolheu os buritis como inspiração. A criação destacou a ligação dessas árvores com as veredas e com as águas do Cerrado. Larissa da Silva foi a modelo.
A artista Cybele Bartels, transitando entre o figurativismo e referências do modernismo cubista, levou para a peça a vegetação e a flora do Cerrado. A apresentação foi feita por Luiza, enquanto Luciara, irmã da artista, esteve presente para receber o reconhecimento do público.
O crochê ganhou destaque com Maria Dorotéia, que transformou linhas em formas de vestir. A peça, apresentada por Graça Jales, mostrou como uma técnica tradicional pode se transformar em verdadeira arquitetura do vestir.
Cleni Diniz homenageou o lobo-guará, animal ameaçado e símbolo do Cerrado, acompanhado da lobeira, planta também associada a conhecimentos da medicina tradicional. A modelo Help apresentou a criação.
Na pintura de Elaíse Gomes, o gavião apareceu em meio ao cenário de seu habitat natural. A peça, marcada pelo estilo academicista da artista, foi apresentada por Liza Bonato.
Eliana Melo Franco levou para a passarela as formas e cores das flores do Cerrado mineiro, em uma composição de linguagem figurativa. A modelo Mércia apresentou a criação.
Os pássaros que enchem o Cerrado de cantos e cores foram a inspiração de Fábio Ferrer, artista de múltiplos talentos. A peça foi apresentada por Juliana Jales.
Flávio Costa escolheu o macaco-prego, também conhecido como mico-de-topete, para sua homenagem à fauna do Cerrado. Natani desfilou a criação.
O trabalho de Ivani Silveira mostrou a força do crochê. Linhas cuidadosamente escolhidas deram forma a uma peça que buscou representar as cores e a rusticidade do Cerrado. O modelo Diego Almeida levou a criação à passarela.
A arara-canindé, com o contraste marcante entre o azul e o amarelo de suas penas, foi a inspiração de Janaína Campos. A peça, apresentada por Paullynne Lima, também trouxe a lembrança dos buritizais, onde essas aves podem construir seus ninhos.
O encanto do beija-flor apareceu na criação de Junior Mattos, apresentada por Liza. A peça procurou traduzir a leveza e a delicadeza desse pequeno visitante do Cerrado.
Kelli Evangelista, com sua experiência como arte-educadora e pintora, escolheu os buritizais e as veredas, com suas águas puras e cristalinas. O modelo Zé do Badauê apresentou a criação.
A força e a imponência da onça-pintada ganharam espaço na peça de Lourival Muniz, apresentada por Ruth Brochado.
A jovem artista Luísa de Souza, em um processo de descoberta e afirmação de sua linguagem artística, trouxe para a passarela animais que integram o ecossistema do Cerrado: o pica-pau e o tamanduá-bandeira. A modelo Lucian Vidal apresentou a peça.
Com reconhecido domínio da aquarela, Maria do Céu escolheu a raposa do Cerrado como inspiração para sua pintura em tecido. A criação foi apresentada por Léia.
Mariza Adjuto, bordadeira de talento e precisão, utilizou agulhas, linhas e diferentes pontos para reproduzir as riquezas do Cerrado. Help apresentou a peça.
As quaresmeiras e os frutos do Cerrado foram retratados pela artista Marlene Gama, pintora experiente e professora que também contribuiu para a formação de novos talentos. A criação foi apresentada por Junio.
Neuza de Faria, bordadeira que compartilha seus conhecimentos e incentiva a continuidade dessa forma de expressão cultural, escolheu a sucupira como tema. Marcelle Adjuto levou a peça à passarela.
A arte e a fé voltaram a se encontrar na criação de Vanessa Julianny, que apresentou Nossa Senhora da Abadia, reverenciada como protetora do Cerrado. A peça foi apresentada por Natasha Campos.
O jatobazeiro, com sua exuberância e presença na flora regional, foi a inspiração de Zilá, que utilizou o bordado para traduzir a beleza da vegetação. Eucária Birro apresentou a criação.
Uma homenagem que atravessa gerações
O encerramento do desfile artístico teve um significado especial. Aynes Nazar, aos 91 anos, mostrou que a arte não conhece idade.
Morando atualmente em Guarapari, próxima ao mar, a artista recebeu o convite para participar do projeto e prontamente aceitou. Com autonomia e entusiasmo, escolheu o tecido, providenciou a confecção do vestido e se entregou novamente ao processo criativo.
A peça foi apresentada por Juliana Jales. No telão, imagens de Dona Aynes em momentos em que transformava a própria sala de casa em ateliê ajudaram a contar essa história.
Para receber o reconhecimento do público em nome da artista, esteve presente seu neto, Otávio Augusto.
Quem protege o Cerrado também foi homenageado
A noite terminou com uma homenagem àqueles que trabalham diretamente na proteção da fauna e da flora.
Em nome do Tenente Norberto, a organização agradeceu à Polícia Militar pela presença do Subtenente Fernando Gonçalves dos Santos e do 1º Sargento Luiz Estevão Gonzaga Santos, destacando o trabalho realizado no combate ao tráfico de animais silvestres.
O Corpo de Bombeiros, representado pelo Tenente Fábio, também foi lembrado pelo trabalho de preparação e treinamento de brigadistas para o combate aos incêndios no Cerrado.
O Parque Estadual esteve representado por Karine, gerente da unidade, que acompanhou a homenagem aos brigadistas Jairon Líder, William Biano, Bruno Gomes, Ruan Macedo e Roni Anderson.
No encerramento, todos os modelos retornaram ao palco para uma apresentação conjunta, reunindo em um mesmo instante artes, modelos e as diferentes expressões que marcaram a noite.
Uma história que continua
O Arte na Passarela é uma iniciativa da Associação dos Amigos da Cultura de Paracatu (AACP), entidade sem fins lucrativos, sem vínculos partidários ou religiosos, que desde 1996 atua pela preservação e conservação do patrimônio cultural material e imaterial do município.
A primeira edição do projeto aconteceu em 2003, quando a renda arrecadada foi destinada a ações emergenciais de melhoria nas estruturas de sustentação da Igreja de São Sebastião do Pouso Alegre, uma ermida localizada nas proximidades de Paracatu e com características do início do século XIX.
Em 2025, o segundo Arte na Passarela trouxe como temática o patrimônio material, imaterial e natural de Paracatu. Nesta terceira edição, o olhar se voltou para o Cerrado e para sua riqueza.
A realização contou com o apoio da Prefeitura Municipal de Paracatu, do prefeito Pedro Adjuto, da Secretaria Municipal de Cultura, por meio do secretário Thiago Venâncio e sua equipe, e da Fundação Municipal Casa de Cultura, presidida por Vera Botelho.
A organização também reconheceu a participação de parceiros que contribuíram para que a noite acontecesse. Entre eles, Cida Ulhôa, que mais uma vez abriu as portas de sua casa para que o espaço fosse transformado em camarim; a costureira Gilvane, homenageando também todas as costureiras de Paracatu; Center Panos – Supermercado do Artesanato, representado por Luciana; Toninho; e os cabeleireiros Felipe Torres e Jonatha.
A Kinross Paracatu, por meio da parceria com o projeto “Moro aqui, compro aqui”, também contribuiu para valorizar produtores locais.
Ao final, ficou a sensação de que o Arte na Passarela cumpriu mais uma vez sua missão: colocar a cultura diante dos olhos da comunidade e lembrar que a arte não está distante. Ela vive nas mãos de quem pinta, borda, costura, tece, cria e preserva.
Vive também na paisagem que inspira.
No Cerrado que resiste.
Nas águas, nos bichos, nas flores e nos frutos.
E, sobretudo, nas pessoas que fazem de Paracatu um lugar onde arte, memória, natureza e identidade continuam caminhando juntas.





































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