Participantes de evento da FAO conhecem tecnologias para segurança alimentar na Embrapa Cerrados

 Participantes de evento da FAO conhecem tecnologias para segurança alimentar na Embrapa Cerrados

Foto: Breno Lobato

Participantes da LARC39 ao lado da diretora Ana Euler, do chefe-geral da Embrapa Cerrados, Jorge Werneck, e do chefe da Assessoria de Relações Internacionais da Embrapa, Marcelo Morandi

Uma visita de campo na Embrapa Cerrados (DF) na última sexta-feira (6) finalizou a 39ª Conferência Regional da Organização das Nações Unidas (FAO) para a Alimentação e a Agricultura para a América Latina e o Caribe (LARC39), evento realizado em Brasília, durante toda a semana. Acompanhados pelo chefe da Assessoria de Relações Internacionais da Embrapa, Marcelo Morandi, representantes de 10 países conheceram algumas das pesquisas e soluções tecnológicas que podem contribuir para a segurança alimentar da região.

A diretora de Inovação, Negócios e Transferência de Tecnologia da Embrapa, Ana Euler, destacou o papel primordial dos países da América Latina de produzir alimentos para o mundo. “Para isso, precisamos produzir ciência. E não é qualquer ciência: uma ciência associada a um compromisso social, de desenvolvimento sustentável, com um olhar no social, no econômico e no sustentável”, afirmou, lembrando a presença da Embrapa em todos os biomas brasileiros.

“As fronteiras são políticas e geográficas, mas somos um único povo. Nesse sentido, estamos muito alinhados aos compromissos assumidos pelo presidente Lula de promover uma aliança global para erradicar a fome, a pobreza e a desigualdade”, disse Ana Euler, ressaltando o compromisso institucional e ético de colocar as instituições e o conhecimento a serviço desse propósito, que está associado a questões conjunturais como as mudanças climáticas.

Para a diretora, não há como falar sobre as mudanças climáticas sem considerar a produção de alimentos e os desafios atuais e futuros da busca de soluções para a produção de alimentos. “E a Embrapa está aqui, querendo fortalecer e expandir as suas parcerias. Embora tenhamos construído, nos nossos 53 anos, muitas soluções, sabemos que só essas soluções não serão suficientes. Temos muito a oferecer em termos de cooperação. Assim como nós temos conhecimentos, vocês também têm conhecimentos que são extremamente importantes”, explicou, manifestando o desejo de fortalecimento dos laços de cooperação entre os países para o alcance de objetivos comuns.

O chefe-geral da Embrapa Cerrados, Jorge Werneck, falou sobre o papel-chave das pesquisas da Unidade no desenvolvimento agropecuário do bioma Cerrado e do País, que de importador de alimentos cinco décadas anos atrás, tornou-se grande produtor e exportador. “Se hoje o Brasil consegue produzir alimentos para mais de três vezes a sua população, isso se deve muito ao processo de ocupação do Cerrado. Era uma terra considerada ruim e distante. Alguns chamam de milagre brasileiro ou de revolução silenciosa agropecuária do Brasil. Só que de milagre não teve nada. Foi muito trabalho, um processo de 50 anos. Hoje, produzimos mais de 50% de toda a produção agrícola nacional”, afirmou.

Werneck citou os impactos de algumas das principais tecnologias geradas pela Unidade e parceiros, como a Fixação Biológica de Nitrogênio, que retornou ao País cerca de R$ 30 bilhões somente em 2025; o uso do calcário e do gesso agrícola para correção da acidez e da toxidade do alumínio presente no solo do Cerrado (cerca de R$ 10 bilhões) e o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (R$ 6 bilhões). “Estou falando de bilhões (de reais). Para manter esta unidade, o custo é de aproximadamente R$ 8 milhões por ano, só para se ter uma ideia do que geramos de benefício com cada real que é investido em pesquisa, em ciência, em conhecimento para o Brasil”, disse, acrescentando que nos campos experimentais da Embrapa Cerrados há cerca de 50 experimentos em execução, além daqueles conduzidos em propriedades rurais.

Ao lembrar a assinatura, na última quinta-feira (5), de um memorando de entendimento entre a Embrapa e a FAO para ampliar a cooperação internacional em pesquisa, inovação e formulação de políticas voltadas ao desenvolvimento de sistemas agroalimentares sustentáveis, o chefe-geral enfatizou que a Unidade está sempre aberta a parcerias e preparada para se propor como centro internacional de referência em agricultura tropical para as savanas. “Nós já somos uma referência mundial, mas, quem sabe, com essa parceria, consigamos avançar ainda mais. Fazemos parcerias com os demais países para que eles possam nos ajudar na questão da segurança alimentar, climática, hídrica e energética”, finalizou.

Práticas e tecnologias para a segurança alimentar

Nos campos experimentais da Unidade, foram apresentadas quatro estações. Os sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) foram apresentados pelos pesquisadores da Embrapa Cerrados Roberto Guimarães Junior e Karina Pulrolnik. Eles mostraram exemplos de consórcios, rotações e sucessões de sistemas agrícolas, pecuários e florestais viáveis atualmente para produtores de todos os portes no Brasil, permitindo a recuperação de pastagens degradados e a produção de duas até cinco safras anuais, dependendo da região.

Os sistemas integrados seguem os princípios de mínimo revolvimento do solo, cobertura orgânica permanente do solo e diversificação de espécies. Eles proporcionam benefícios ao solo (uso eficiente de fertilizantes, maior ciclagem de nutrientes e infiltração de água), às culturas agrícolas (maior produtividade e resiliência a estresses hídricos), aos animais (conforto animal pela sombra das árvores, permitindo maior produção de embriões e leite por zebuínos) e ao ambiente (aumento do estoque de carbono no solo, mitigação de gases de efeito estufa e balanço de carbono favorável), além de ganhos econômicos.

Segundo os pesquisadores, produtos advindos desses sistemas sustentáveis, como carne e leite, têm recebido selos e certificações de baixo carbono e carbono neutro. “Tudo isso mostra que é possível aumentar a produtividade e ao mesmo tempo ser sustentável”, disse Guimarães Jr.

Eduardo Alano, também pesquisador da Unidade, abordou as pesquisas em melhoramento participativo de mandioca para o Cerrado, trabalho focado na inclusão socioprodutiva, na segurança alimentar, na sustentabilidade e na integração com a produção animal. Planta presente em todo o Brasil, a mandioca foi eleita pela FAO como o alimento do século XXI, principalmente devido ao potencial de uso na alimentação humana e animal. Alano falou sobre os diferentes sistemas de produção de mandioca de mesa e de indústria, desde os que utilizam tração animal até os que usam colheitadeiras.

A pesquisa realiza cruzamentos de materiais e faz seleção de materiais promissores na Unidade, considerando características como arquitetura de planta que facilite o plantio mecanizado e os tratos culturais, aspectos nutricionais das raízes. A partir daí, a seleção das variedades de mesa e de indústria é realizada de forma participativa junto aos agricultores, com plantios em propriedades com diferentes sistemas de produção e níveis de tecnificação.

“Acompanhamos os produtores e quem dá a palavra final sobre a recomendação ou não de um material são eles”, explicou o pesquisador, apresentando exemplos de cultivares de mandioca de mesa com raízes de polpa amarela ou rosada e de mandioca para a produção de polvilho e farinha e as possibilidades de aproveitamento integral das plantas, conforme a variedade e o sistema de produção, na alimentação animal (uso da parte aérea e da massa que sobra da extração do amido das raízes pela indústria), na produção de compostos para adubação (uso da casca das raízes) e na produção de biogás (com o líquido tóxico da mandioca de indústria). “Por que não exportamos esses materiais? É um mercado que pode se abrir para pequenos produtores e comunidades”, apontou.

Conservação da diversidade genética das plantas que nos alimentam

Os representantes do Consultative Group for International Agricultural Research (CGIAR) Vânia Azevedo (diretora do Acelerador de Bancos Genéticos) e Alexandre Mello (pesquisador da Embrapa Hortaliças), discorreram sobre a importância da conservação e do uso de germoplasma por meio da cooperação e da troca de conhecimentos entre instituições. O CGIAR tem como um de seus mandatos a conservação da diversidade genética das principais culturas agrícolas para os seres humanos e para alimentação animal, reunindo 11 bancos de germoplasma de 26 culturas (sendo cerca de 700 mil variedades) em diferentes partes do mundo. Nos últimos sete anos, o CGIAR disponibilizou amostras a mais de 150 países para fins de pesquisa, sobretudo em melhoramento genético, além de repatriar materiais conforme as demandas dos países.

Vânia Azevedo apresentou a técnica de criopreservação, na qual brotos em crescimento podem ser armazenados em nitrogênio líquido a uma temperatura de -196°C, garantindo a conservação por muito mais tempo. “A criopreservação é revolucionária para a conservação de culturas clonais, pois não exige a manipulação constante das plantas, permitindo-nos conservar essa diversidade por séculos”, disse, acrescentando que culturas clonais importantes na América Latina, como mandioca, batata e batata-doce podem assim ter cópias de segurança das coleções. A ideia agora é criar uma rede global de criopreservação.

A cientista citou como exemplo da importância das cópias de segurança o caso do International Center for Agricultural Research in the Dry Areas (ICARDA), em Aleppo, na Síria. Devido à guerra, os funcionários tiveram que deixar o país e abandonar o banco de germoplasma, que foi perdido. Como havia uma cópia da coleção de sementes em Svalbard, na Noruega, foi possível recuperar os materiais. Ela também contou sobre uma experiência com o uso de banco de germoplasma para o melhoramento genética nas Filipinas, que contam com um banco de germoplasma de mais de 150 mil variedades de arroz oriundas de diversos países. Com o desenvolvimento de uma ferramenta de inteligência artificial, foi possível agrupar os acessos pelas características fenotípicas. O trabalho permitiu a seleção, no Vietnã, de variedades mais produtivas e resistentes à salinidade em relação às cultivares comerciais existentes.

Alexandre Mello relatou a experiência, ainda em andamento, de interação entre os centros do CGIAR na solução de um problema local: a ocorrência no Brasil (Amapá), na Guiana e na Guiana Francesa, da vassoura-de-bruxa da mandioca, doença fúngica que causa o apodrecimento e a morte das plantas. “Estamos buscando alternativas genéticas para substituir as variedades locais por variedades que temos em nosso banco de germoplasma e, eventualmente, trabalhar em colaboração com o CIAT (Centro Internacional de Agricultura Tropical), que abriga a coleção de mandioca, para tentar encontrar alternativas. Três países da região já estão afetados pelo patógeno, o que representa uma grande ameaça para nossas comunidades, visto que dependemos muito do consumo de mandioca para nossa sustentabilidade”, explicou, acrescentando que esforços têm sido feitos para reduzir os focos da doença para evitar que ela se espalhe para outros estados.

Máquinas e equipamentos para a agricultura familiar

Na estação sobre opções de máquinas e equipamentos especiais para agricultura familiar, o pesquisador Zaré Brum, atualmente coordenador geral de Pesquisa e Inovação e Patrimônio Genético do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), explicou que o órgão está desenvolvendo um programa para a ampliação do acesso a maquinário e equipamentos adaptados às condições da agricultura familiar nas diferentes regiões brasileiras, com um componente de desenvolvimento tecnológico que envolve parcerias com diversas instituições, a identificação e validação de demandas, o fortalecimento de centros de pesquisa e inovação, e linhas de financiamento para empresas e agricultores. Dois dos parceiros são o Instituto Invento e a LiveFarm, ambos de Brasília.

O Instituto Invento atua no desenvolvimento de tecnologias de baixo custo e fácil acesso, utilizando a metodologia da construção e da capacidade criativa junto a comunidades em situação de vulnerabilidade, a partir das demandas tecnológicas apresentadas por elas. “Não fazemos transferência tecnológica nem criamos tecnologias para as comunidades. Nós as capacitamos para que criem as próprias tecnologias. Em cinco, seis dias, criamos protótipos para acesso a água, energia, plantio, colheita, beneficiamento de produtos da agroecologia e da sociobiodiversidade, prevenção e combate a incêndios e restauração florestal. Repetimos o ciclo de desenho de alguns desses protótipos até que eles cheguem a um nível de maturidade em que passem a ser produtos replicáveis”, explicou o diretor Odair Scatolini, mostrando o protótipo de uma colhedora de açaí, uma quebradora de cumaru, uma multiprocessadora de mandioca, um medidor de sementes de andiroba, um coletor de mel de abelhas nativas e um sensor para prevenção de incêndios florestais.

Já a LiveFarm é uma empresa voltada a soluções para agricultores familiares. No ano passado, foi assinada uma joint-venture com a Hans Machineries, empresa chinesa que produz exclusivamente para a LiveFarm no Brasil. “A partir de problemas no campo trazidos por produtores e cooperativas, estudamos uma solução e a produzimos em grande parte na China. Com essa parceria, conseguimos melhorar os equipamentos e trazer novas soluções para a agricultura familiar brasileira e dos países vizinhos a um custo mais baixo para o produtor”, disse o representante Thiago Alvin. Ele apresentou uma roçadeira, um micro-trator com função de moto-cultivador, peças para revolvimento e sulcagem do solo, uma colhedeira, uma armadilha para o bicudo do algodoeiro com sensores com inteligência artificial e um encanteirador.

Visitantes vão levar aprendizados a seus países

A visita de campo à Embrapa Cerrados teve repercussão positiva entre os participantes da LARC39. O ministro da Agricultura, Segurança Alimentar e Novas Indústrias de Crescimento de Belize, Rodwell Ferguson, disse estar muito impressionado com as tecnologias apresentadas. “Vi que vocês fazem muita pesquisa e tornaram o solo do Cerrado equilibrado e fértil. Isso é impressionante. O Brasil é autossuficiente em alimentos pelo que vocês fazem, por isso quero aplaudir a Embrapa pelo excelente trabalho nos últimos 50 anos”, comentou, manifestando interesse em estabelecer cooperação com a Embrapa.

Shoraya Suárez, deputada da República Dominicana e coordenadora da Frente Parlamentar contra a Fome para América Latina e Caribe, explicou que o presidente de seu país prometeu declarar fome zero, e que o índice de subnutrição já caiu para 3,6%, próximo da meta de 2,5%. Para isso, o governo decidiu mecanizar os sistemas de produção agrícola. A parlamentar declarou estar feliz por ter visto, durante a visita de campo, a diversidade de máquinas e de formas de produzir alimentos de forma segura, justamente no momento em que o país caribenho está elaborando a lei da agricultura familiar, que busca empoderar os pequenos agricultores de base familiar com maquinário, assessoramento e sementes, além de facilitar o acesso a mercados.

“Isso chega como uma luz para aqueles agricultores familiares que podem mecanizar (a produção), conseguir mais rendimento em seus produtos e, obviamente, que produzam produtos seguros. É o que vamos levar a nosso país e para a FAO. Temos que mostrar aos legisladores que isso existe, para que possam canalizar para seus países e obter todo o benefício que há aqui de conhecimento”, disse, também destacando os aprendizados sobre os sistemas de ILPF e as pesquisas com melhoramento genético de mandioca. “Há muito o que aprender aqui, não somente sobre máquinas, mas também sobre boas práticas”, concluiu.

Sobre a LARC39

A 39ª Conferência Regional da FAO para a América Latina e o Caribe (LARC39) foi realizada entre 2 e 6 de março no Palácio do Itamaraty, em Brasília. O encontro constitui um espaço de diálogo e discussão técnica e política de alto nível sobre os avanços e desafios da América Latina e do Caribe no combate à fome e à má nutrição.

Participaram autoridades governamentais de 32 países membros da FAO, incluindo chefes de estado, ministros da Agricultura e ministros de outros setores, a Santa Sé, organismos e agências especializadas do Sistema das Nações Unidas, organizações intergovernamentais, organizações da sociedade civil, organizações do setor privado, academia e instituições de pesquisa, parlamentares, observadores e estados não membros.

Durante os cinco dias de evento, foram discutidas as prioridades que devem orientar o trabalho da FAO nos próximos dois anos, seguindo quatro prioridades regionais: produção eficiente, inclusiva e sustentável (Melhor Produção); acabar com a fome e alcançar a segurança alimentar e a nutrição (Melhor Nutrição); estão sustentável dos recursos naturais e adaptação à mudança climática (Melhor Ambiente) e redução das desigualdades e da pobreza e promoção da resiliência (Uma Vida Melhor).

Breno Lobato (MTb 9417/MG)
Embrapa Cerrados

Núcleo de Comunicação Organizacional – NCO

Embrapa Cerrados

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