Paracatu em Serenata transforma noite de março em palco de memória, arte e emoção

 Paracatu em Serenata transforma noite de março em palco de memória, arte e emoção

Projeto cultural percorre ruas históricas da cidade e celebra o teatro, o circo e as histórias que vivem nas casas e nos corações

Na noite de sexta-feira, 27 de março, Paracatu abriu suas ruas e praças como quem abre um livro de memórias. Em mais uma edição do projeto Paracatu em Serenata, música e teatro caminharam juntos, costurando histórias, despertando afetos e transformando a cidade em um grande palco a céu aberto.

A saída, na Praça Firmina Santana, marcou o início de um percurso repleto de significado. O cortejo seguiu em direção à casa do professor e cineasta Lavoisier Albernaz, passou pela residência de Dona Eleuza Caldas, pela casa de Dona Helenice e, por fim, encontrou o coreto da Praça do Rosário, onde a arte ganhou novos contornos com a participação especial do Grupo Cênikas.

A noite foi feita de alegrias e saudades, uma travessia sensível que homenageou o Dia Mundial do Teatro e o Dia Nacional do Circo. Entre canções e encenações, o público foi convidado a revisitar não apenas os espaços da cidade, mas também as histórias que habitam cada endereço, cada varanda, cada quintal.

Desde sua criação, em 2024, o Paracatu em Serenata já realizou seis apresentações e alcançou cerca de 1.500 pessoas, consolidando-se como uma importante iniciativa de difusão cultural no município. Com patrocínio da Kinross Paracatu, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, o projeto fortalece a cena artística local, amplia o acesso da população às manifestações culturais e preserva tradições que resistem ao tempo.

Visivelmente emocionado, o produtor executivo Silvano Avelar acompanhou o grupo na missão de levar música e teatro àqueles que ajudaram a construir a história da cidade, um gesto de reconhecimento que reflete para além das apresentações.

Um dos momentos mais marcantes da noite foi a parada na casa de Dona Helenice, onde a arte encontrou a palavra. Ali, o público foi presenteado com o texto de Vanessa Ruas, apresentado pelo Grupo Cênikas, uma narrativa que transcende o tempo e transforma o espaço em personagem vivo.

A seguir, o texto na íntegra:

“Esta casa é de festa, é de encontros, é de alegria, é de comida farta e de bebida boa. E a música — sem a qual a vida seria um erro, como nos lembra um filósofo alemão — é a companhia mais que perfeita para todas essas ocasiões. E hoje, mais uma vez.

O que diria, se em 1869, quando chegou a Paracatu, tivesse o alagoano Manoel Caetano Pereira da Rocha o dom de vaticinar sobre as muitas histórias que se passariam na casa de número 343 da rua antiga que lhe rende homenagem no centro da velha cidade mineira?

Se poucos registros há sobre Manoel Caetano — o bem-sucedido político e negociante influente na vida social da pequena Paracatu do século XIX —, fosse ele um vidente, coisa rara e, portanto, digna de apontamento, esta curiosidade biográfica teria atravessado os séculos e chegado até nós nesta linda noite de março de 2026. É de se supor, dessa forma, que o ilustre personagem a quem esta casa se relaciona nada pôde antever do que aqui se passaria.

Conto-lhes eu, ainda que abreviadamente. É possível que, em 1905, quando faleceu aquele Caetano, o Manoel, esta casa já existisse. Digo ser possível, mas não afirmo que assim foi. Façamos juntos a matemática.

Se de Elisa e Aureliano, construtores e primeiros moradores desta casa, nasceram muitos filhos — dentre os quais Amélia, que em 1933 deu à luz Diogo, seu nono filho —, é muito provável que Manoel Caetano tenha posto seus olhos nesta construção. Isto, por óbvio, sem nem de longe cogitar que seria citado como ponto de referência — “a serenata será na casa de Dona Helenice, na rua Manoel Caetano, 343” — para que hoje músicos, cantores e cantadores chegassem a este quintal de alegrias sem fim.

Sim, senhoras e senhores: fogueiras e balões, bolos e velas, bolas e festões, máscaras e confetes, verdes e amarelos, panelões e garrafões sempre se sentiram em seu habitat natural estando nesta casa.

Manoel, o Caetano, que morreu em 1905 e não era vidente, não teve o prazer reservado aos muito privilegiados de conhecer Diogo, o neto de Elisa e Aureliano. Diogo comprou esta casa dos herdeiros de seus avós no início da década de 60 do século XX e aqui fez sua família — e fez feliz sua família — junto com Helenice, a morena mais frajola do Ribeirão, que, diferentemente da baiana frajola, não negou amor ao seu enamorado.

O primeiro endereço do casal foi na rua da Capelinha — hoje rua Pinheiro Chagas — e ali viram nascer sua primogênita, a sapeca Vaninha, que encantava a todos com sua inteligência e vivacidade. Quando para aqui vieram, não era raro que a menininha, cheia de opinião, quando se sentia contrariada, fugisse com sua trouxinha de roupas para a casa da vizinha e amiga da vida toda, Dona Violeta Macedo. Fernando, marido de Vânia, está sempre atento para não a ver de trouxinha nas costas, pois a determinação cresceu junto com ela.

A vizinhança sempre foi acolhedora e bem acolhida pelos Aragão Alves Duarte. Dona Laura e Zé Carlos; Dona Manduca e Dona Lira; Dona Nigrinha, Eleuza, Lourinho e seus filhos; Dona Dirce, Seu Roldão e seus rebentos; a família de Alda e Bené; Dr. Agostinho, Cláudia e os seus; Ivone, Humberto e as crianças; Dona Zenaide e sua turma; muitos da família Mariano; Maria Joana e Juca Paxá; Dona Maria, Seu Neném, Dona Elvia, Salvador e a meninada; Manoel Rabelo, Dona Lourdes e sua grande prole. Enfim, a redondeza toda mereceria ser citada por fazer parte desta história.

No tempo em que Vânia, Mauro, Vanessa e Marcelo — os quatro filhos de Diogo e Helenice — eram crianças, este quintal era muito maior, com um enorme pomar do qual se podiam colher goiabas, mangas, pêssegos, laranjas, romãs, limões, figos, atas, uvas, cajás-mangas, mexericas, jacas, frutas-do-conde, jabuticabas. Estas últimas brotavam de árvores tão antigas que Helenice, do alto de seus quase 90 anos, se lembra de quando vinha fazer comédia de jabuticabas no quintalão cercado apenas por arame, aproveitando-se do fato de que fosse cega a dona da casa que um dia — e para todos os dias da vida — seria sua. Coisas da meninada da rua Manoel Caetano, onde Helenice já morava quando criança.

Não há vivente que se recorde de bananeiras neste quintal, mas há quem saiba que aqui também elas tiveram lugar. Mauro, o segundo rebento de Diogo e Helenice, conta que Milim, um dos filhos de Elisa e Aureliano, foi cortar uma bananeira no fundo do quintal, infartou e morreu. A bananeira se salvou. Morreu de causas naturais.

Quanta história neste pedaço de chão.

As coisas mudam. É natural que mudem. A transitoriedade é a única permanência. Este quintal também mudou. Contam-se hoje apenas duas pequenas árvores, quase dois arbustos. O pé de romã — não o da infância das décadas de 70 a 90, mas um tão produtivo quanto aquele — e o pé de acerola, que se enche de pequenininhas bolinhas vermelhinhas e se faz árvore há muitos Natais. A família toda e muitos amigos continuam a se reunir embaixo delas e em torno das mesas que seguem fartas.

No lugar de algumas árvores que abrigavam passarinhos e joaninhas, há agora uma linda casa abrigando uma família: a família de Marcelo e Débora. E é Júlia quem canta, muito mais lindo que os pardais de antes. É mágico vê-la subir no telhado de sua casa para apreciar o pôr do sol, como as crianças faziam outrora, trepadas em galhos de laranjeiras.

No fundo do quintal, onde já houve há mais de um século uma bananeira de boa sorte, viveram depois muitos bichos, como faisões, mutuns, pombas, patos, galinhas e até emas e capivaras. As crianças do grupo escolar chegavam aqui para fazer excursão, como se se tratasse de um zoológico. Ernane, genro querido de Dona Helé, conta que foi numa dessas visitas que a menina Vanessa lhe atraiu o olhar. Anos depois, fez para ela uma serenata e estão juntos até hoje, 44 anos passados. Atentem-se, pois, músicos e cantadores, para o poder arrebatador de uma boa serenata.

Depois do quase-zoológico, houve ali ao fundo uma distribuidora de bebidas com a qual Diogo mantinha a família e a alegria de muitos paracatuenses. Depois, outros comércios no mesmo lugar se estabeleceram e, presentemente, novos empreendimentos se anunciam em colunas que agora são erguidas.

A cristaleira e o jogo de mesa e cadeiras da época do casamento de Helenice e Dioguinho nem são as peças mais antigas do mobiliário, já que ainda se dorme em camas que foram de Elisa, primeira habitante da casa. Aquela mesa onde Cizinha usa seu tablet, por exemplo, era da fazenda da Lagoa de Santo Antônio, onde moravam Amélia e Pedro, pais de seu sogro Diogo. Na estante dos anos 50 que fica acolá, na sala, pode-se encontrar a coleção de Machado de Assis bem embaixo da prateleira onde fica a Smart TV. O tempo vai passando e trazendo consigo as novidades para conviverem com o que era antes.

Os netos Juninho e Paulinha agora conduzem Lara e Maria, suas filhinhas, para brincarem nesta casa e neste quintal como eles fizeram. E como fizeram as mães deles, e os pais das mães deles, e os avós de seus avós.

Quem ainda aqui virá cantar, dançar e fazer espetáculos circenses pelas mãos dos netos Eduardo, Vitor, Malu e Júlia? O mesmo dom de prever o futuro que faltou a Manoel Caetano — aquele que dá nome a esta rua — a todos nos falta. Mas a história desta casa, a casa de Dona Helenice, nos faz crer que a alegria e a música, sua mensageira mais eloquente, seguirão sendo protagonistas deste enredo.

Que ventura a escolha deste palco para daqui ecoar os acordes desta linda serenata em Paracatu.”

 

Comentários

O Lábaro

Posts Relacionados