Editorial — 7 de janeiro, Dia do Leitor
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Por que ler Galeano hoje é um ato de consciência e resistência
Hoje, 7 de janeiro, celebramos o Dia do Leitor. Não o leitor passivo, domesticado pelo ruído veloz das telas, mas aquele que insiste em abrir livros como quem abre janelas. Ler, na América Latina, nunca foi apenas um gesto cultural: sempre foi um ato político, um exercício de memória e, muitas vezes, de desobediência.
Neste dia, o livro que se impõe à mesa não é neutro nem confortável. As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, retorna, como sempre retorna, quando a realidade aperta o cerco. Há obras que envelhecem; esta reaparece. Há livros que explicam o passado; este sussurra o presente e grita o futuro.
Li As Veias Abertas da América Latina ainda na década de 1980, em um período marcado por ditaduras, transições democráticas frágeis e profundas desigualdades na região. Desde então, o livro nunca deixou de dialogar com o presente. A cada nova crise, a cada novo ciclo de espoliação, suas páginas parecem ser relidas pela própria realidade latino-americana.
Galeano escreveu sobre uma América Latina ferida, saqueada, explorada até os ossos. Uma terra rica que aprendeu, à força, a ser pobre. Ouro, prata, açúcar, café, borracha, petróleo, soja, lítio, a lista muda, mas a lógica permanece. O livro nos ensina que o desenvolvimento do Norte Global não é um acidente virtuoso da história, mas o outro lado do subdesenvolvimento imposto ao Sul. Prosperaram porque drenaram. Cresceram porque sangramos.
O leitor atento percebe que As Veias Abertas não é apenas um relato histórico; é um mapa. Ele nos ajuda a entender por que a desigualdade persiste, por que a soberania latino-americana é constantemente ameaçada, por que crises econômicas e políticas se repetem como um ciclo maldito. O colonialismo mudou de roupa, mas não de intenção. Hoje fala a língua dos mercados, dos fundos financeiros, das sanções, das dívidas eternas e das guerras que não se declaram, mas se executam em silêncio.
Ler Galeano em 2026 é compreender que a dependência não terminou com a independência formal. Ela se sofisticou. Agora opera por meio do controle financeiro, da captura de governos, da precarização do trabalho e da ideia perigosa de que nada do que vem do Sul tem valor próprio. O chamado “viralatismo”, essa doença social que nos ensina a desprezar a nós mesmos, também é uma forma de dominação.
Por isso, o livro segue sendo um símbolo de luta. Ele circula entre jovens, movimentos sociais, salas de aula e mochilas gastas. É reencontrado, sublinhado, presenteado. Quando Chávez o entregou a Obama durante a 5ª Cúpula das Américas, em Trinidad e Tobago, em abril de 2009, não foi um gesto folclórico: foi um lembrete histórico. Um aviso de que há feridas abertas que não se curam com discursos, mas com justiça.
Em tempos de ofensivas neoliberais, bloqueios econômicos, golpes híbridos e democracias frágeis, Galeano oferece mais do que denúncia: oferece ferramentas. Sua obra dialoga com a Teoria da Dependência e com a necessidade urgente de pensar um desenvolvimento autônomo, enraizado nas realidades latino-americanas, e não importado como receita pronta de fora.
Celebrar o Dia do Leitor, portanto, é reafirmar o direito de entender o mundo para transformá-lo. É reconhecer que ler é resistir ao esquecimento, à mentira confortável e à narrativa única. As Veias Abertas da América Latina continua atual porque as veias ainda sangram, e porque ainda há leitores dispostos a não fechar os olhos.
Hoje, o leitor é chamado a fazer mais do que virar páginas. É chamado a escutar a história que pulsa nelas. A leitura, aqui, não é fuga: é enfrentamento. E enquanto houver leitores dispostos a compreender as causas profundas da nossa crise, haverá também a possibilidade, ainda que frágil, ainda que distante, de cicatrizar o que a exploração insiste em manter aberto. Em 2026, As Veias Abertas da América Latina completa 55 anos, e essa longevidade não é apenas editorial: é política, histórica e humana. Prova de que suas páginas não pertencem ao passado, mas continuam a interpelar o presente.
“Na luta do bem contra o mal, é sempre o povo que morre.”
A Editora

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