Um século de fé, trabalho e memória: os 101 anos de Ildeu Novaes Pinto

 Um século de fé, trabalho e memória: os 101 anos de Ildeu Novaes Pinto

Entre estradas, garimpos e sinos, a história de um paracatuense que atravessou gerações e transformou sua vida em exemplo de dedicação, tradição e espiritualidade.

  Há vidas que se contam em datas. Outras, em histórias. A de Ildeu Novaes Pinto se mede em caminhos percorridos, em trabalho, em fé e no som dos sinos que ecoam sobre Paracatu há décadas.

No dia 14 de março de 2026, a cidade celebrou um marco raro e precioso: os 101 anos de vida de seu Ildeu, nascido em 14 de março de 1925. Um homem cuja trajetória se confunde com a própria história do município, marcada por esforço, coragem e uma fé que nunca se perdeu pelo caminho.

Viúvo de Eunice de Lourdes e pai de seis filhos, seu Ildeu começou cedo na lida. Ainda menino, aos 7 anos de idade, já dirigia caminhão, numa época em que a infância muitas vezes dividia espaço com o trabalho. Ao lado do pai, conheceu o cotidiano duro do garimpo, ambiente que ensinou disciplina, resistência e determinação.

“Os sinos são a voz de Deus.” 

Assim define seu Ildeu, que há mais de 30 anos mantém viva a tradição de tocar os sinos em Paracatu.

Foi também o primeiro funcionário da antiga Casa de Criolo, hoje conhecida como Casa Paracatu, além de ajudar nas atividades da fazenda da família. Com o fruto do próprio esforço, comprou um caminhão Alfa Romeo e iniciou a vida nas estradas, profissão que lhe renderia não apenas sustento, mas também histórias que atravessariam gerações.

Uma delas se entrelaça com um dos capítulos mais importantes do país. Durante a construção de Brasília, seu Ildeu transportou cimento de Belo Horizonte para a nova capital brasileira. Foi nesse período que se aproximou do então presidente Juscelino Kubitschek. Entre viagens e conversas, nasceu uma amizade que ele guarda com orgulho, a ponto de lembrar que JK chegou a visitar sua casa em Paracatu.

Anos depois, continuou sua trajetória de trabalho como motorista no serviço de combate à malária, atendendo diversos distritos da região. Também integrou a SUCAM, desempenhando um papel importante na saúde pública. Trabalhou até os 70 anos e, mesmo depois de encerrar oficialmente suas atividades, nunca deixou de manter o espírito ativo.

Mas foi na fé que encontrou uma nova missão.

Durante uma festa de São Benedito, olhando para o alto da igreja, seu Ildeu fez uma afirmação simples, quase profética: seria ele quem tocaria o sino. Subiu na torre e tocou. O gesto, que parecia apenas um impulso, transformou-se em tradição. Há mais de 30 anos, ele é o sineiro da cidade, sempre encantado com a beleza dos sinos.

Para seu Ildeu, os sinos não são apenas parte das celebrações religiosas. Eles têm um significado maior. “Os sinos são a voz de Deus”, costuma dizer.

A tradição, como tudo em sua vida, também foi passada adiante. Ele ensinou o ofício à filha, ao neto e ao bisneto, garantindo que o som que marca a fé de Paracatu continue atravessando gerações.

Mesmo aos 101 anos, a rotina permanece ativa. Seu Ildeu produz artesanato, pinta quadros, navega pelas redes sociais e não precisa de óculos para acompanhar o mundo ao seu redor. Todos os dias reserva um tempo especial para a oração, sempre dedicado à família e aos amigos.

Quando perguntado sobre o segredo de uma vida tão longa e cheia de histórias, responde com a serenidade de quem aprendeu o essencial: amor ao próximo, simplicidade e humildade.

E assim, entre lembranças de estrada, capítulos da história do Brasil e o eco dos sinos que atravessam o céu da cidade, seu Ildeu segue como testemunha viva de mais de um século.

Um homem que transformou trabalho em dignidade, fé em missão e vida em legado, daqueles que não pertencem apenas à própria família, mas à memória de toda Paracatu.

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O Lábaro

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