Entre Assombros e Buritis: Uma Noite para a Eternidade

 Entre Assombros e Buritis: Uma Noite para a Eternidade

Lançamento da HQ inspirada em “Assombramento”, de Afonso Arinos, transforma a Academia de Letras do Noroeste de Minas Gerais em cenário de memória, tradição e celebração cultural

Sob as luzes cálidas da noite de 12 de fevereiro, a Academia abriu suas portas como quem abre um baú antigo: dele saíram memórias, rendas, retratos, sanfonas, fogão a lenha, balanças, lamparinas e aquele perfume invisível de casa de vó. A decoração, delicadamente tecida por afetos e antiguidades, transformou o espaço num relicário do tempo, onde passado e presente se encontraram para celebrar a literatura e a identidade sertaneja.

O motivo da celebração não poderia ser mais simbólico: o lançamento da HQ adaptada do conto Assombramento, de Afonso Arinos. Em cada traço, em cada página, pulsava a força de um escritor que elevou o sertão mineiro à universalidade das grandes narrativas. Às vésperas dos 110 anos de sua morte, que se completam em 19 de fevereiro, a noite assumiu contornos de reverência e reencontro. Paracatu reverenciava um de seus filhos mais ilustres, ocupante da Academia Brasileira de Letras, reconhecido além das fronteiras do país.

“O sertanejo é antes de tudo um guardião de tradições, e cada encontro é uma festa que se prolonga na alma.” A frase ecoou como um chamado. E foi exatamente isso que se viu: uma festa que se prolongará na memória de todos os presentes.

Compuseram a mesa de honra Helen Ulhoa Pimentel, vice-presidente da Academia e prefaciadora da obra; o secretário de Cultura, Thiago dos Reis Gomes Venâncio; o secretário de Turismo, Igor Araujo Diniz; e, sob calorosa salva de palmas, os autores Daniela Prado,  Presidente da Academia de Letras do Noroeste de Minas e Fernando Freitas, que conduziram o público pelos caminhos criativos da adaptação, da palavra escrita ao desenho que respira e assombra.

A noite seguiu solene e vibrante. O Hino a Paracatu abriu os trabalhos, exaltando a terra do príncipe, do ouro e do esplendor, dos buritis de Arinos, do eterno amor. Houve falas que reafirmaram o compromisso com a cultura e com as políticas públicas de incentivo ao livro, houve emoção na leitura de um trecho de Buriti Perdido, realizada por Lavoisier Wagner Albernaz, ocupante da cadeira dedicada a Afonso Arinos na Academia. Cada palavra parecia costurar ainda mais o elo entre tradição e permanência.

E como todo encontro sertanejo que se preza, a celebração não terminou nos discursos. Encaminhando-se para o encerramento, o público foi convidado para uma noite de “tropeiragem”, e ali, entre arroz branco, vaca atolada, torresmo e feijão tropeiro, a literatura ganhou sabor e cheiro de cozinha mineira. A música da banda de Thuyan Santiago trouxe o compasso final, como se o sertão, vasto e misterioso, soprasse suas vozes pelo salão.

Como escreveu Afonso Arinos em Pelo Sertão, “o sertão é vasto e misterioso, cheio de vozes que se perdem no vento e de histórias que se guardam na memória dos homens.” Naquela noite especialmente linda, as vozes não se perderam: encontraram eco. E as histórias, em vez de se guardarem apenas na memória, ganharam novas formas, em quadrinhos, em abraços, em aplausos.

Foi mais que um lançamento. Foi um reencontro com nossas raízes. Uma celebração da palavra que resiste, do sertão que permanece e da cultura que nos faz, eternamente, voltar para casa.

 

 

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O Lábaro

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