Consumidores questionam falta de repasse de corte da Petrobras; gasolina cai nas refinarias, mas segue cara, e até sobe, nos postos
Foto da internet para ilustração
A redução de 5,2% no preço da gasolina anunciada pela Petrobras, equivalente a R$ 0,14 por litro no valor vendido às distribuidoras, entrou em vigor em 27 de janeiro. Apesar disso, motoristas em diversas regiões do país relatam que não perceberam qualquer alívio no preço cobrado nas bombas. Em muitos postos, os valores permaneceram elevados e, em alguns casos, chegaram a subir nas semanas anteriores, ampliando a insatisfação dos consumidores.
Levantamentos feitos por equipes de reportagem indicam que, mesmo após a entrada em vigor do corte, a gasolina continuava sendo vendida acima de R$ 6 por litro em várias cidades no dia 27 de janeiro. Consumidores relataram dificuldade em encontrar reduções imediatas, o que reforçou a percepção de que o desconto anunciado pela estatal não chegou ao bolso do motorista.
Especialistas do setor explicam que o preço divulgado pela Petrobras refere-se apenas à gasolina “A”, vendida às distribuidoras na saída das refinarias. O valor final ao consumidor depende de uma série de fatores adicionais, como a mistura obrigatória com etanol anidro, custos logísticos, margens de distribuição e revenda, além da carga tributária.
Um dos principais componentes que têm neutralizado os efeitos das reduções é o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços). No início de janeiro de 2026, estados passaram a aplicar alíquotas reajustadas, o que elevou o imposto em cerca de R$ 0,10 por litro, absorvendo boa parte do corte promovido pela Petrobras.
Economistas ouvidos pelas reportagens destacam que o repasse integral de reduções costuma levar dias ou até semanas, pois depende do escoamento de estoques antigos adquiridos a preços mais altos, da logística de distribuição e da estratégia comercial de cada rede de postos. Além disso, o custo do etanol, que não apresentou queda no mesmo período, e as margens de revenda acabam amortecendo ou até anulando a redução na refinaria antes que ela chegue ao consumidor final.
Refinaria x bomba: a diferença que cresce
O descompasso entre os preços praticados pela Petrobras e os valores cobrados nos postos não é recente. Dados de mercado mostram que, nos últimos três anos, a gasolina ficou cerca de 16% mais barata nas refinarias, enquanto o preço final ao consumidor subiu aproximadamente 27%. A principal explicação está na estrutura da cadeia de distribuição.
Desde a privatização da BR Distribuidora, em 2019, hoje Vibra Energia, a Petrobras deixou de atuar diretamente no segmento de distribuição, perdendo um instrumento relevante de pressão competitiva sobre os preços finais. A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, já afirmou que a estatal reduz os preços sempre que possível, mas não tem controle sobre o valor cobrado ao consumidor, ressaltando que, após a privatização da BR, as distribuidoras ampliaram suas margens.
A Petrobras também lembra que o contrato de venda da BR Distribuidora inclui uma cláusula de não concorrência válida até 2029, o que limita a atuação direta da estatal nesse mercado.
Para o ex-presidente da Petrobras Jean Paul Prates, a venda da distribuidora foi um erro estratégico. “Foi um erro para o consumidor, porque a Petrobras perdeu um instrumento importante de referência e disciplina de preços”, afirmou. Segundo ele, a fragmentação do mercado e a baixa concorrência em diversas regiões facilitam a retenção de ganhos ao longo da cadeia intermediária.
Estudos da Associação dos Engenheiros da Petrobras (Aepet) indicam que a privatização da BR reduziu a competição na distribuição, resultando em margens mais elevadas e preços finais maiores. O Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) também aponta falhas regulatórias e assimetrias regionais que dificultam o repasse das reduções anunciadas pela estatal.
Desde dezembro de 2022, a Petrobras promoveu diversos cortes no preço da gasolina, incluindo reduções expressivas em 2023 e novos ajustes em 2025 e 2026. O diesel e o gás de cozinha também registraram quedas relevantes no período. Ainda assim, o impacto no bolso do consumidor tem sido limitado, sobretudo em regiões com pouca concorrência entre distribuidoras e postos.
Diante desse cenário, órgãos de defesa do consumidor, como os Procons estaduais, orientam que denúncias de aumentos considerados abusivos ou da ausência de repasse de reduções sejam formalizadas, para que haja investigação e eventual fiscalização no setor varejista de combustíveis.
Referências
- “Preço da gasolina cai e o consumidor não vai sentir a diferença; entenda” — Band.com.br, 26/01/2026.
- “Petrobras reduz preço da gasolina em 5,2% a partir desta terça” — Agência Brasil, 26/01/2026.
- “Preço da gasolina na bomba deve cair 1,54% com redução da Petrobras” — SBT News, 27/01/2026.
- “Redução da gasolina anunciada pela Petrobras já está valendo” — BandNews FM, 27/01/2026.
- “Petrobras reduz preço da gasolina nas refinarias em 5,2%” — Aconteceu Bicas, 27/01/2026.
- “Gasolina mais barata? Redução nas distribuidoras pode não chegar aos postos do DF” — Diário Cidade News, 27/01/2026.

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