“FELICIDADE DA NAÇÃO”
Há 204 anos, D. Pedro I proclamava o Dia do Fico
Foto em destaque: Aclamação de Dom Pedro I no Campo de Sant’Ana, por Jean-Baptiste Debret – Getty Images
Em 9 de janeiro de 1822, o Brasil ouviu mais do que uma frase histórica. Ouviu um gesto. Um gesto que ecoou como ruptura, promessa e risco. “Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, estou pronto. Digam ao povo que fico.” Naquela manhã abafada do verão carioca, Dom Pedro de Alcântara não apenas contrariava ordens de Lisboa: inaugurava, com palavras e coragem política, o caminho sem volta da Independência.
O chamado Dia do Fico, celebrado anualmente em 9 de janeiro, marca o instante em que o Príncipe Regente decidiu permanecer no Brasil, recusando-se a retornar a Portugal como exigiam as Cortes portuguesas. O projeto era claro: reverter o Brasil ao status de colônia, desmontando avanços administrativos conquistados desde a chegada da Família Real em 1808. A resposta, porém, veio das ruas, dos salões e das assinaturas, cerca de oito mil, reunidas em um abaixo-assinado articulado por liberais radicais e pelo chamado Partido Brasileiro, que viam na permanência de D. Pedro a última barreira contra a recolonização.
A história costuma celebrar heróis solitários, mas o Dia do Fico foi um ato coletivo. Foi pressão popular, cálculo político e sensibilidade histórica. Dom Pedro não falou sozinho; falou depois de ouvir. Sua rebeldia não foi impulso, mas leitura do tempo: o tempo em que o Brasil já não cabia mais no papel de apêndice do Império português.
O episódio ganha contornos ainda mais simbólicos quando lembramos que o decreto que efetivamente separava Brasil e Portugal não foi assinado por Dom Pedro, mas por Maria Leopoldina, sua esposa. Enquanto ele estava em São Paulo costurando alianças e juramentos de lealdade, foi Leopoldina, ao lado do Conselho de Ministros, quem assumiu a responsabilidade do rompimento formal. A decisão atravessou o país em forma de carta e encontrou Dom Pedro às margens do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822, transformando-se no grito que a história consagrou.
O Dia do Fico, portanto, não é apenas um prólogo da Independência. É seu alicerce político e simbólico. Representa a emergência de uma ideia de nação que começava a se reconhecer como tal, ainda elitista, ainda excludente, mas já consciente de sua singularidade. Foi ali que o Brasil disse, ainda em voz contida, que queria decidir seu próprio destino.
Duzentos e quatro anos depois, a frase de Dom Pedro resiste ao tempo não pela figura do príncipe, mas pela força da ideia: a felicidade da nação como princípio político. Em tempos de crises recorrentes e disputas sobre soberania, lembrar o Dia do Fico é recordar que a história do Brasil também é feita de escolhas, e que ficar, às vezes, é o ato mais revolucionário de todos.
Referências históricas:
– FAUSTO, Boris. História do Brasil.
– CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem.
– SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia.
– Documentos das Cortes Portuguesas (1821–1822).
A editora

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