O Sertão que Habita em Nós: A Força dos Autores de Paracatu no Fliparacatu
Por Dra. Eleusa Spagnuolo Souza
O Festival Literário Internacional de Paracatu (Fliparacatu) transformou nosso Centro Histórico no coração pulsante da palavra e da cultura nacional. Sob o tema inspirador “Sertão em Nós: Meu Lugar no Mundo”, o evento trouxe debates profundos guiados pelas visões de João Guimarães Rosa e do geógrafo Milton Santos.
Contudo, enquanto as páginas da grande mídia nacional se encantavam com os discursos de nomes de fora, as veredas mais bonitas e legítimas do festival foram desenhadas por quem tem os pés fincados nesta terra.
A verdadeira alma do festival não veio de longe; ela já estava aqui. A riqueza da nossa ancestralidade, da nossa oralidade e das nossas memórias cotidianas ganhou o topo dos palcos na voz de grandes mulheres e intelectuais paracatuenses.
Exemplo disso foi a emocionante mesa que debateu os ditos populares da nossa região. Dona Benedita dos Reis Soares Costa, com sua sabedoria geracional, levou ao público a poesia viva da vida na roça e o real sentido do companheirismo no campo. Ao seu lado, a professora, escritora e poeta Maria Tereza Oliveira Melo Cambronio destrinchou a riqueza linguística do nosso cotidiano, resgatando a origem de expressões tão nossas e mostrando o papel fundamental da mulher na preservação e transmissão dessa herança cultural.
Nossa identidade também se fez gigante nas vozes de outros talentos locais que integraram a programação. Através do apoio essencial da Academia de Letras do Noroeste de Minas (ALNM), eles provaram que o regionalismo não é um tema estático em um livro de 70 anos atrás, mas uma força viva que se renova a cada página escrita em Paracatu.
Os grandes autores internacionais e nacionais trazem visibilidade e belas reflexões, m
as são os nossos escritores locais que dão o verdadeiro chão ao pensamento do nosso município.
O festival passa, as estruturas desmontam, mas a obra de Dona Benedita, de Maria Tereza e de tantas outras pratas da casa, permanece como o mapa ético e afetivo da nossa própria travessia.
Paracatu não apenas sedia um festival internacional; Paracatu é a própria literatura viva.
*Eleusa Spagnuolo Souza é doutora em Educação e Ecologia Humana (UnB) e titular da cadeira nº 26 da Academia de Letras do Noroeste de Minas (ALNM). Professora universitária na UniAtenas e avaliadora do MEC/Inep, pesquisa a identidade e a cultura do campo, sendo autora do livro “As vozes das mulheres trabalhadoras rurais no Assentamento Herbert de Souza”.

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