“A memória é mais forte que o esquecimento”: Sandro Neiva lança livro sobre Rosilene Amorim em Paracatu

 “A memória é mais forte que o esquecimento”: Sandro Neiva lança livro sobre Rosilene Amorim em Paracatu

Obra de Sandro Neiva resgata a trajetória de Rosilene, assassinada em 1996, e transforma memória em reflexão sobre feminicídio, violência contra a mulher, justiça e prevenção

Há noites que terminam quando as luzes se apagam. E há noites que continuam, silenciosas, dentro de quem esteve presente.

A noite de ontem, 7 de agosto, foi uma dessas.

Na Fundação Casa de Cultura de Paracatu, memória, emoção e reflexão se encontraram no lançamento de Ecos de Rosilene Amorim – Memória, Feminicídio e Justiça, obra do jornalista, documentarista e escritor paracatuense Sandro Neiva.

A data do lançamento também carregou um simbolismo especial: em 7 de agosto de 2026, o Brasil completou 20 anos da Lei Maria da Penha, marco fundamental no enfrentamento à violência doméstica e familiar contra a mulher. A Lei nº 11.340 foi sancionada em 7 de agosto de 2006.

Duas décadas depois, entretanto, a data chega acompanhada não apenas de celebração, mas também de inquietação.

Os números revelam a dimensão do desafio. Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), nos primeiros quatro meses de 2026, o Judiciário brasileiro concedeu 225.535 medidas protetivas de urgência, além de 412 medidas concedidas pela polícia e posteriormente homologadas pela Justiça. O volume supera o registrado no mesmo período de 2025 e 2024.

Mais do que números, são pedidos de socorro. São histórias interrompidas, mulheres que buscam proteção e famílias que carregam marcas que nem sempre aparecem nas estatísticas.

É nesse território delicado entre a dor e a esperança que nasce o livro de Sandro Neiva.

Uma história que se recusa ao esquecimento

Ecos de Rosilene Amorim – Memória, Feminicídio e Justiça é resultado de uma extensa pesquisa documental e resgata a trajetória de vida de Rosilene Amorim, preservando sua memória e transformando sua história em instrumento de reflexão sobre a violência contra a mulher, o acesso à Justiça e a responsabilidade coletiva diante de uma realidade que ainda insiste em se repetir.

Ao colocar Rosilene novamente no centro da narrativa, o livro não permite que sua história seja reduzida a uma estatística.

Há nomes por trás dos números.

Há mães.

Há famílias.

Há sonhos interrompidos.

Há uma vida inteira que não cabe na palavra “vítima”.

E há a memória, essa espécie de resistência silenciosa contra o esquecimento.

Na noite do lançamento, essa memória ganhou voz, presença e significado.

Uma mesa formada por diferentes vozes

 

A cerimônia reuniu representantes do poder público, da cultura, da Justiça, da defesa dos direitos das mulheres e, sobretudo, pessoas diretamente ligadas à história de Rosilene.

Compuseram a mesa Pedro Aguiar Adjuto, prefeito municipal de Paracatu; Vera Lúcia Lemos Campos Botelho, diretora-presidente da Casa de Cultura de Paracatu; Jennifer Blatt, advogada e presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher; Luciene Dadalt, delegada especializada de Atendimento à Mulher de Paracatu; Maria José de Amorim Soares, mãe de Rosilene Amorim; e o autor da obra, Sandro Neiva.

A presença de Maria José acrescentou à noite uma dimensão impossível de ignorar.

Para uma mãe, memória não é apenas lembrança.

É presença.

É saudade.

É a tentativa de manter viva, por meio das palavras, a existência de alguém que partiu de maneira brutal e prematura.

E, naquela noite, a história de Rosilene encontrou novas vozes dispostas a não deixá-la desaparecer.

O autor e a força da pesquisa

Nascido em Paracatu, Sandro Neiva é jornalista formado pela Universidade Católica de Brasília, onde também se especializou em Cinema-Documentário.

Filho de Zaida Neiva, professora e ex-servidora da Superintendência Regional de Ensino de Paracatu, e de Orlando Ulhôa Batista, ex-presidente da Coopervap e ex-vice-prefeito de Paracatu, Sandro construiu sua trajetória profissional entre o jornalismo, a cultura e o audiovisual.

Foi jornalista e editor das revistas Porão do Rock, de Brasília, e Rock Brigade Magazine, de São Paulo. Também atuou como repórter do Jornal de Brasília e como assessor de comunicação do Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal.

Atualmente, integra o Movimento Cultural Noroeste Rock Minas e colabora com os jornais O Lábaro, Paracatu Net e Visão Regional.

Como documentarista, dirigiu obras como Ouro de Sangue, Casa Diogo, Cerrado em Pé, Coutinho e o Outro, Meu Parceiro Julião, Dente de Lôbo, Bicho do Mato e Redson nos Tempos do Cólera.

Em 2021, lançou de forma independente Paracatu Rock City – Uma História de Rock’n’Roll no Noroeste de Minas, importante registro da história da música produzida em Paracatu.

Agora, com Ecos de Rosilene Amorim – Memória, Feminicídio e Justiça, sua escrita se volta para outra dimensão da memória: aquela que nasce da dor, atravessa documentos, histórias e silêncios e chega ao presente como um chamado à consciência.

A memória resiste, e a cultura resiste

Em seu pronunciamento, Sandro Neiva falou sobre o significado de lançar a obra justamente no dia em que o Brasil completava 20 anos da Lei Maria da Penha. Segundo o autor, a coincidência entre as datas não foi planejada, mas acabou adquirindo um significado especial.

“Lançar um livro que resgata a memória de Rosilene Amorim justamente neste dia reforça o compromisso de transformar lembrança em consciência, e consciência em prevenção.”

Para Sandro, o espaço escolhido para o lançamento também carregava um simbolismo especial. A Casa de Cultura de Paracatu, segundo ele, é mais do que um prédio histórico: é uma guardiã da memória coletiva da cidade.

E foi justamente sobre memória que o autor construiu parte de sua fala.

“A memória é uma ferramenta de compreensão. É por meio dela que entendemos de onde viemos, onde estamos e para onde queremos caminhar.”

Ao recordar Rosilene, Sandro fez questão de ir além da tragédia que interrompeu sua vida em 15 de setembro de 1996. Para ele, a história de Rosilene não poderia ser contada apenas a partir de sua morte.

“Este livro não nasceu para contar apenas a história de sua morte. Ele nasceu para resgatar a história de sua vida.”

E essa vida, como destacou o autor, era marcada por múltiplas facetas. Rosilene era mãe, jornalista, artista, poeta e uma jovem de 25 anos que viveu intensamente, acreditando na força das palavras, na riqueza de sua cultura e na atitude libertária do rock’n’roll.

Amigo de Rosilene desde a adolescência, Sandro contou que, durante a pesquisa documental, encontrou poemas, reportagens, lembranças e fragmentos de uma personalidade que não poderia ser reduzida à condição de vítima.

Foi nesse processo que compreendeu que preservar sua memória também era uma forma de fazer justiça.

“Porque a violência não tenta apenas tirar vidas. Ela tenta apagar histórias. Tenta transformar trajetórias inteiras em uma nota de rodapé. Mas a memória resiste. E a cultura resiste.”

A reflexão do autor também percorreu as transformações ocorridas no Brasil nas últimas três décadas. Quando Rosilene foi assassinada, ainda não existia a Lei Maria da Penha, nem as medidas protetivas de urgência ou a rede especializada de atendimento às mulheres que hoje integra as políticas públicas de enfrentamento à violência.

Sandro reconheceu os avanços conquistados, mas ressaltou que a existência de leis e instituições, embora fundamental, não é suficiente para eliminar a violência contra a mulher.

Para ele, o enfrentamento precisa começar antes, nas relações cotidianas, na educação e na mudança de comportamentos.

“A violência começa quando uma mulher é humilhada. Quando sua autonomia é desrespeitada. Quando suas escolhas são controladas. Quando sua voz é silenciada.”

E completou com uma reflexão que atravessa toda a obra:

“O feminicídio é o último estágio de uma longa cadeia de violações.”

Na avaliação do autor, combater a violência contra a mulher é também uma tarefa cultural e educativa, que envolve toda a sociedade.

“Que tipo de sociedade queremos construir?”, questionou Sandro, defendendo uma sociedade em que a liberdade das mulheres seja respeitada, em que o amor não seja confundido com posse e em que nenhuma mulher precise ter medo de exercer sua autonomia.

 

Os ecos que permanecem

Ao explicar a escolha do título da obra, Sandro encontrou na própria palavra “ecos” a síntese daquilo que pretendeu construir com o livro.

“Os ecos permanecem mesmo quando a voz parece distante. Os ecos atravessam o tempo. Os ecos nos alcançam décadas depois.”

Trinta anos depois da morte de Rosilene, seus poemas continuam existindo, sua história continua sendo contada e sua memória continua provocando reflexão.

Para o autor, essa permanência é também uma forma de resistência.

“Acredito profundamente que transformar memória em prevenção é uma das formas mais importantes de fazer justiça.”

Sandro encerrou seu pronunciamento com palavras que deram à noite um dos momentos de maior emoção.

“Há trinta anos, a violência tentou silenciar uma mulher. Tentou apagar uma artista. Tentou apagar uma jornalista. Tentou apagar uma poeta. Mas não conseguiu.”

E concluiu:

“Porque a memória é mais forte que o esquecimento. Porque a cultura é mais forte que o silêncio. Porque a poesia é mais forte que a violência.”

Naquela noite, portanto, o livro deixou de ser apenas uma obra recém-lançada.

Passou a ser também um gesto de memória.

Uma homenagem.

Um registro.

E, sobretudo, um convite para que a história de Rosilene Amorim não permaneça apenas no passado, mas continue produzindo perguntas no presente e ajudando a construir um futuro em que outras mulheres possam viver plenamente suas histórias, seus sonhos e suas escolhas.

Os ecos de Rosilene, como disse Sandro, continuam reverberando.

Na poesia.

Na cultura.

Na memória de Paracatu.

E na esperança de que lembrar também possa ser uma forma de transformar.

 

Música, autógrafos e confraternização

A programação seguiu com um momento especialmente preparado para a ocasião. O músico paracatuense José Adão Franco apresentou um pocket show com quatro canções que dialogaram com os temas que atravessaram a noite: memória, esperança e valorização da vida.

A música trouxe uma nova linguagem para as emoções que já haviam tomado conta do espaço. Entre acordes, lembranças e silêncios, a arte voltou a ocupar seu lugar como instrumento de expressão e resistência.

Na sequência, Sandro Neiva recebeu o público para uma sessão de autógrafos, compartilhando com leitores, familiares e amigos o resultado de uma pesquisa que nasceu de uma história pessoal, mas que encontrou no livro uma dimensão coletiva.

A noite terminou com um coquetel de confraternização, reunindo autoridades, representantes das instituições, familiares, amigos e pessoas que foram à Casa de Cultura para prestigiar o lançamento.

E talvez seja justamente essa a força de uma história como a de Rosilene Amorim: quando a memória encontra a palavra, ela deixa de pertencer apenas ao passado.

Ela passa a interpelar o presente.

A noite terminou.

Mas os ecos permaneceram.

Comentários

O Lábaro

Posts Relacionados