Arthur Abrantes  parcatuense, negro e ex-aluno de escola pública, se forma em Harvard

 Arthur Abrantes  parcatuense, negro e ex-aluno de escola pública, se forma em Harvard

A Universidade de Harvard, nos EUA, completa seus 386 anos no dia 8 de setembro deste ano. A instituição, considerada entre uma das melhores do país e do mundo, formou seu primeiro estudante negro há mais de 200 anos, em 1870.

fotos das redes sociais

O paracatuense em emocionante pronunciamento publicado nas redes sociais, Arthur Abrantes, de 25 anos, contou sobre a experiência de se graduar na Universidade de Harvard, em Massachusetts, nos Estados Unidos (EUA). Ele dedicou o diploma ao pai, que faleceu em 2018. “Ele era mecânico, começou a trabalhar muito cedo e só fez até a quarta série. Acho que ele teria ficado muito orgulhoso de mim”, escreveu.

Arthrhyr Abrantes nasceu em Paracatu- MG, e sempre estudou em escolas públicas. Arthur foi aprovado no processo seletivo do Instituto Federal Triângulo Mineiro durante o ensino médio.

A aprovação impulsionou o sonho de estudar fora do Brasil. O jovem estudou sozinho para aprender inglês, utilizando aplicativos. Depois de muito estudo, se inscreveu no processo seletivo de 12 universidades norte-americanas.

E deu certo: o paracatuense oi aprovado em Harvard, Stanford e em outras cinco instituições de ensino americanas.

O Jornal O Lábaro entrevistou o estudante Arthur de Oliveira Abrantes, paracatuense que sempre estudou na rede pública de ensino. Arthur foi admitido pela Universidade de Harvard, localizada em CambridgeMassachusettsEstados Unidos. Na entrevista, o estudante conta sua história, seus sonhos, sua formação educacional, a força da família e até a alegria ao receber a ligação dos EUA para informar-se de sua admissão.

Confira, abaixo, a primeira entrevista feita pelo Jornal O Lábaro  com o grande brasileirinho.

Entrevista com o estudante Arthur de Oliveira Abrantes, que está entre os 212 estudantes estrangeiros admitidos pela universidade americana de Harvard.

Jornal O Lábaro – Quem é Arthur?

Arthur de Oliveira – Arthur é um garoto de 18 anos (quase 19) que gosta de dar boas risadas com seus amigos, tocar um violão para desestressar, assistir netflix até tarde da noite, usar as redes sociais mais do que deveria e ter aquele almoço em família no Domingo. Como todo mundo, tem coisas das quais o Arthur não gosta: ele não gosta de repetir a mesma coisa várias vezes, odeia esperar (em qualquer sentido) e não gosta de acordar muito cedo. Arthur é um cara normal, mas que tem sonhos “impossíveis”. Geralmente quando ele busca algo, ele o faz com a certeza de que está dando seu melhor, mesmo que não seja otimista sempre. Arthur é uma pessoa que se alegra com o “sim” e que aprende com o “não”.

Jornal O Lábaro – Do que você mais gosta? (Comida, poesia, filmes, esporte, etc).

Arthur de Oliveira – Se tem uma coisa que eu gosto é conhecer gente nova. Durante a minha curta jornada já fiz amigos de todos os cantos do Brasil e alguns até do exterior. É muito bom conhecer pessoas que vêm de realidades diferentes das suas, com quem você pode aprender e a quem você pode ensinar algo.

Jornal O Lábaro – Quem são seus pais?

Arthur de Oliveira – Minha mãe, Anísia, é uma das pessoas mais honestas e bondosas que eu já tive a oportunidade de conhecer. Ela me inspira todos os dias a buscar meus objetivos e me apoia em todos os sentidos possíveis. O meu pai também não fica para trás. Apesar de ser linha dura às vezes, ele ainda assim é consistente com seus princípios e me ensinou a ser uma pessoa boa e com princípios também.

 

Jornal O Lábaro – Você estuda e trabalha?

 

Arthur de Oliveira – Eu já me formei no Ensino Médio, o que significa que eu não estudo em uma escola mais. No entanto, eu ainda estudo em casa, pois assim poderei pular matérias que eu já sei na faculdade. Eu atualmente trabalho como professor de inglês numa escola de idiomas de Paracatu, a Wizard.

 

Jornal O Lábaro – O que pode nos dizer sobre os professores que teve até hoje?

 

Arthur de Oliveira – Acredito que o professor é um dos profissionais mais importantes (senão o mais importante) em uma nação. Apesar de toda a desvalorização da profissão, eu tive a sorte de ter professores muito bons durante toda a minha vida. Sempre se mostraram muito dispostos a me dar todo o suporte que eu precisava para aprender e crescer tanto academicamente quanto pessoalmente.

 

Jornal O Lábaro – Você sempre foi aluno de escolas públicas. Sabemos que nosso sistema público de educação ainda tem muito a melhorar e a maioria das escolas, sejam elas públicas ou privadas, ainda sustenta uma forma de ensino ultrapassada que não abrange as necessidades do contexto de educação atual. Para você, quais são as deficiências, hoje, na educação em geral?

 

Arthur de Oliveira – Acredito que a falta de estrutura é um dos maiores problemas. Na maioria das vezes, os profissionais da educação têm vontade de oferecer aos seus alunos aquilo que têm de melhor, porém a escola não tem estrutura suficiente para tornar isso possível. Por todos os lados no país pode-se ver escolas superlotadas, com carteiras em más condições, sem conexão à internet, sem ar-condicionado (o que faz muita diferença no nosso clima tropical), sem quadra de esportes em boas condições, com falta de materiais básicos, etc. Além disso, há uma desvalorização absurda do professor no Brasil, o que com certeza tem efeitos ruins na educação em geral.

 

Jornal O Lábaro – Nos fale um pouco do IFTM.  Como foi a sua trajetória e que curso você concluiu no estabelecimento?

 

Arthur de Oliveira – O IFTM foi uma escola excepcional que me abriu muitas portas. Lá, cursando o curso de Técnico em Eletrônica integrado ao Ensino Médio, eu tive acesso a uma infraestrutura impecável e recursos que me permitiram desenvolver diversas atividades que, com certeza, agregaram muito ao meu crescimento. Além disso, a equipe de profissionais da escola é extremamente qualificada, o que torna o aprendizado ainda mais eficiente.

 

Jornal O Lábaro – Por que Harvard?

 

Arthur de Oliveira – Primeiro, por causa das pessoas. Sim, Harvard é uma das melhores universidades do mundo, mas o melhor de Harvard não é a escola em si, mas sim as pessoas com as quais terei contato. Isso inclui tanto a comunidade de brasileiros que estuda lá, à qual sou fã, como também os professores, as personalidades (presidentes, artistas, economistas, cientistas, etc.) que visitam a escola frequentemente, etc. Além disso, Boston, a cidade onde a universidade está localizada, é um lugar muito moderno e que te permite ter uma qualidade de vida muito boa. A cidade está perto de grandes centros mundiais, como Nova Iorque e Washington DC, e oferece muitas opções de lazer. Finalmente, as oportunidades que terei no futuro tendo o nome “Harvard” no meu currículo são ilimitadas. Nem o céu é o limite.

 

Jornal O Lábaro – Harvard é uma das maiores universidades do mundo, de onde saíram grandes talentos e premiados do Nobel. Quando você se vê em Harvard, o que imagina construindo em seu futuro?

 

Arthur de Oliveira – Eu imagino uma gama de oportunidades e de portas que se abrirão. É difícil prever exatamente que impacto Harvard terá na minha vida, mas posso ter certeza que esse impacto será grande. É muito bom saber que a partir de agora eu, mais do que nunca, posso ter controle total sobre o que eu vou ser. No momento, espero fazer muitas conexões durante meu tempo na universidade e, futuramente, ser empreendedor no ramo tecnológico e ter fundos suficientes para, entre outras coisas, impactar positivamente a educação pública no Brasil.

 

Jornal O Lábaro – Qual foi sua reação quando recebeu a notícia?

 

Arthur de Oliveira – Eu não estava esperando. A resposta de Harvard estava programada para sair no dia 31 de Março, mas a universidade manda respostas adiantadas para os candidatos que se destacam no processo de candidatura. Assim, no dia 16 de Fevereiro eu estava no meu segundo dia no trabalho quando o telefone tocou. Eu vi que era um número dos Estados Unidos e pensei que alguma universidade pudesse estar entrando em contato para pedir mais alguma informação. No entanto, quando atendi, uma pessoa que disse ser de Harvard me avisou que eu havia sido aceito. No momento fiquei cético e perguntei diversas vezes se aquilo não era alguma “pegadinha”. O sentimento foi algo indescritível. A tradução mais próxima para ele é “euforia com sensação de dever cumprido”

 

Jornal O Lábaro – Na sua formação, tanto educacional, quanto familiar, quem ou quais foram seus maiores aliados?

 

Arthur de Oliveira – Alguma vez achou não ser possível conquistar o que conquistou, e por quê? Os meus maiores aliados, sem dúvida, foram minha família e meus professores. Eles sempre acreditaram em mim, mesmo quando eu não acreditava. Eu sempre tive vontade de fazer sempre mais do que me era pedido. Consequentemente, como eu não via ninguém a minha volta fazendo o que eu queria fazer, eu por diversas vezes achava que seria difícil conseguir, mas não impossível. Eu sabia que se eu desse o meu melhor, poderia dar errado, mas também poderia dar certo. Isso me motivava a tentar.

 

Jornal O Lábaro – Qual a mensagem que você deixa para os meninos e meninas que estudam em escolas públicas?

 

Arthur de Oliveira – Você tem que olhar para a sua vida agora e imaginar o que você quer ser no futuro. Se pergunte como o que você está fazendo com a sua vida hoje vai influenciar naquilo que você quer ser. As suas ações estão te aproximando ou te afastando dos seus objetivos? Se você respondeu a primeira opção, continue fazendo o que está fazendo. Senão, está na hora de rever os seus atos e mudar. Aprenda que nada de bom na vida vem fácil, mas que com planejamento, paciência, vontade e, principalmente, trabalho duro, você pode chegar aonde quiser.

 

 

 

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